O Rio de Janeiro é o espelho do Brasil. O que ocorre no Rio de Janeiro fatalmente se transmitirá em cadeia para os outros Estados da Federação. As questões de justiça criminal e ordem pública não fogem desta regra. Portanto, é estratégico manter a atenção, estudar o cenário, analisar as experiências e observar as políticas lá realizadas, ajudando no alcance dos objetivos. A solução desta guerra envolve leis duras e um Sistema de Justiça Criminal integrado, ágil, coativo e comprometido em garantir o direito da população à segurança pública.

quinta-feira, 13 de março de 2014

BANDIDOS FAZEM DISPAROS CONTRA PMS DE UPP NO ALEMÃO


Alemão: bandidos fazem disparos contra policiais militares de UPP. Sete homens atacaram base na localidade da Pedra do Sapo. Clima na comunidade é de tensão pela segunda noite seguida. Polícia apura se tráfico orquestrou a manifestação desta terça

RAFAEL NASCIMENTO
ANA CLAUDIA COSTA
O GLOBO
Atualizado:12/03/14 - 23h17



Policiais reforçavam a segurança na esquina da Estrada do Itararé na manhã desta quarta-feira Gabriel de Paiva / Agência O Globo


RIO — Um dia após um protesto no qual um caminhão-tanque foi usado para fechar a Estrada do Itararé, voltou a haver troca de tiros entre traficantes e policiais de uma UPP no Complexo do Alemão. Segundo a assessoria da UPP, sete homens dispararam contra policiais que estavam no contêiner da unidade da Pedra do Sapo na noite desta quarta-feira, mas ninguém ficou ferido. Os PMs revidaram, e o patrulhamento na área foi reforçado. Nenhum tiro teria atingido a sede da unidade. Os bandidos conseguiram escapar.

Antes do ataque, o serviço de inteligência da Polícia Civil tinha enviado um alerta à PM, avisando que um caminhão com armas, escoltado por um carro vermelho, chegara à região. Ainda segundo o aviso, as armas seriam distribuídas a bandidos para que atacassem a UPP.

Nesta quarta-feira, moradores evitaram falar sobre o protesto da véspera. Eles questionavam a prisão de dois suspeitos de ataques a UPPs da região. Segundo o comandante da Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP), coronel Frederico Caldas, há informações de que os manifestantes foram ameaçados por traficantes e obrigados a interditar a estrada. Caldas prometeu reforçar o policiamento no Alemão.

Policiais das UPPs da região, que não quiseram se identificar, admitiram que a situação é problemática. Eles contaram que têm sido hostilizados por moradores, com pedradas e xingamentos.

— A situação aqui é tensa. Ninguém fala conosco, e os traficantes, em sua maioria menores, inibem moradores com ameaças. Todos têm medo. Eles nos xingam e jogam pedras — disse um PM.

Nesta quarta-feira, policiais montaram barreiras nos principais acessos ao complexo. Moradores foram revistados. Cerca de cem policiais civis da Delegacia de Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA) apreenderam 50 motocicletas em situação irregular. Um motociclista procurado por roubo e atentado violento ao pudor foi preso. No Parque Proletário, na Penha, policiais da UPP apreenderam outras 21 motos. Segundo o delegado titular da DRFA, Marcus Vinícius Braga, pode ser que nem todas as motos sejam roubadas, pois muitas vezes os bandidos retiram as placas delas para praticar roubos.

O titular da 45ª DP (Alemão), Felipe Curi, garantiu que há provas contundentes contra os dois homens presos na última segunda-feira, ao contrário do que era defendido pelos manifestantes. Segundo o delegado, Klayton da Rocha Afonso tinha participação ativa no tráfico e organizou os ataques à 45ª DP e a uma sede da UPP, exigindo que moradores saíssem das ruas durante os disparos. O acusado, afirmou Curi, ainda teria comemorado a morte do soldado Rodrigo Paes Leme. Já Hallam Marcílio Gonçalves seria “olheiro” do tráfico.

Nesta quarta-feira, a Divisão de Homicídios divulgou fotografias de dois suspeitos de participar da morte da PM Alda Rafael Castilho, em fevereiro. A Justiça decretou a prisão temporária de Ramires Roberto da Silva e Marcelo Pereira da Silva Júnior.

Especialista: criminosos tentam sabotar programa

O coronel da reserva da PM Milton Corrêa da Costa não tem dúvida de que o tráfico está tentando sabotar o programa das UPPs. E propõe que o Exército volte ao Alemão por um ano.

— Todo o efetivo da Polícia Militar ali existente seria deslocado, então, para o Complexo da Maré, outro ponto estratégico para o narcotráfico. Estaria sendo dado um duro recado ao narcoterrorismo no Rio, neste momento de reafirmação do processo de pacificação em áreas ainda conturbadas.

O antropólogo Lenin Pires, professor da UFF, por sua vez, não crê que as ações de bandidos sejam orquestradas para desestabilizar o estado:

— Isso seria atribuir uma racionalidade que os bandidos não têm. Eles estão tentando defender o negócio, e as ações contundentes podem ser causadas por diversos fatores. Pode ser vingança porque a polícia matou alguém do grupo, pode ser porque um acordo com maus policiais não deu certo, pode ser uma ação para prejudicar rivais e enfraquecê-los.

VILA KENNEDY OCUPADA SEM CONFRONTO EM 20 MINUTOS


Polícia ocupa a Vila Kennedy para instalação da 38ª UPP. Força de segurança tomou a comunidade em cerca de 20 minutos. Dezessete escolas da região ficarão fechadas nesta quinta-feira

ANA CLÁUDIA COSTA
LEONARDO BARROS
SERGIO RAMALHO
O GLOBO
Atualizado:13/03/14 - 9h36


Policiais militares iniciam ocupação da Vila Kennedy Fernando Quevedo / Agência O Globo


RIO — Em apenas 20 minutos, policiais do comando de operações especiais da PM ocuparam as comunidades da Vila Kennedy e Metral, onde será instalada a 38ª Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), em Bangu, na Zona Oeste da cidade. A ação das polícias Militar e Civil começou por volta das 5h desta quinta-feira. Até as 8h, três homens haviam sido presos na região. Dois deles possuíam mandado de prisão. O outro estava com uma moto roubada em casa. Na Favela do Metral, policiais apreenderam duas motocicletas e um carro roubado. Cerca de dez carros do Batalhão de Operações Especiais (Bope) estão na comunidade.

Mais cedo, na chegada da polícia à região, as pistas da Avenida Brasil chegaram a ficar fechadas por cerca de 20 minutos, como medida de segurança. Ainda não há registro de confrontos.

Morador da Vila Kennedy há 48 anos, o aposentado Gelson Machado, de 75 anos, disse que vê com alívio a chegada da polícia à comunidade. Ele contou que os tiroteios na região eram diários e, algumas vezes, duravam até mais de 40 minutos.

O local onde foi implantada a base de operações do Bope, conhecido como Campo Leão 13, servia de rota de fuga de bandidos, que circulavam na região fortemente armados. Nas ruas que dão acesso ao campo, há vestígios de barricadas montadas por traficantes. No entorno, as paredes de quase todas casas estão com pichações.

Entre 300 e 400 policiais do Bope e do Batalhão de Choque participam da operação. Eles contam com o apoio do Grupamento Aéreo Marítimo (GAM), do Batalhão de Ação com Cães (BAC), do Batalhão de Policiamento de Vias Especiais (BPVE) e do 14º BPM (Bangu).

Policiais do Bope montaram uma base operacional próximo a um campo de futebol na Vila Kennedy. A base de comando e controle do Bope recebe imagens em tempo real feitas pelo helicóptero blindado da PM.

Simultaneamente à ocupação da Vila Kennedy, policiais do Bope fizeram uma rápida operação na favela Vila Aliança, em Senador Camará, na Zona Oeste. As equipes foram ao local após receberem informações de policiais que estavam no helicóptero da PM. Segundo os agentes, havia uma movimentação de traficantes da região.

Ao chegar à comunidade, os policiais localizaram um grupo de criminosos e foram recebidos a tiros. Após o primeiro confronto, três traficantes fugiram, entraram em uma casa e chegaram a fazer um morador de refém. Policiais do Bope cercaram o local e conseguiram prender os três homens. Um carro, uma pistola, um fuzil AR-15 e munição foram apreendidos.

Retirada de barricadas na Vila Kennedy

Retroescavadeiras do Bope retiram barricadas construídas por traficantes na favela para evitar o acesso da polícia. Helicópteros da PM sobrevoam as comunidades da Vila Kennedy e Metral, enquanto policiais fazem uma varredura pelas ruas da favela. Policiais do Batalhão de Ação com Cães (BAC) também fazem uma varredura em becos e vielas com cães farejadores em busca de drogas e armas.

Uma base móvel do Instituto Félix Pacheco (IFP), com tecnologia de leitura de digital biométrica para identificação de suspeitos, está montada no pátio do BPVE, na Rua Tunis s/nº. Equipes de policiais civis do Esquadrão Antibomba e de peritos do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) estão na 34ª DP (Bangu), unidade responsável por registrar as ocorrências durante a ocupação. Por causa da ação, 17 escolas das redes estadual e municipal da região ficarão fechadas nesta quinta-feira.

Antes do início da operação, o tráfico atuava livremente na quarta-feira. Em mais uma reação do tráfico ao processo de pacificação, bandidos da Vila Kennedy montaram barreiras nas ruas — inclusive incendiando lixo e pedaços de madeira, entre outros materiais — para impedir o acesso de veículos da PM à comunidade.

De manhã e no início de tarde, jovens podiam ser vistos fumando maconha, sobretudo num trecho ao lado de um campo de futebol, junto a uma escola, na Avenida Central. A toda hora, rapazes em motos passavam intimidando moradores e jornalistas.

Havia pelo menos oito barricadas, feitas, entre outros itens, de blocos de concreto, pneus e até um sofá. As barreiras estavam na entrada da Vila Kennedy e em acessos a bocas de fumo. Os "gerentes' do tráfico já teriam deixado a comunidade. Segundo um comerciante, que também pediu para não ser identificado, desde o fim de semana bandidos estão impondo toque de recolher.

De acordo com um levantamento da Gerência de Estudos Habitacionais do Instituto Pereira Passos (IPP), com base no Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), a Vila Kennedy e Favela da Metral somam uma população de 33.751 pessoas e 10.294 domicílios. No bairro de Bangu, a população é estimada oficialmente em 428 mil habitantes. Todos estes cidadãos são beneficiados imediatamente com a ocupação. Cercada de vias importantes, a retomada desses territórios, além de devolver a paz aos moradores e visitantes, trará ainda uma diminuição gradual no número de roubos a transeunte e de veículos.

Criminosos organizaram fuga

Na tarde de terça-feira, criminosos se reuniram em seu quartel-general, na Rua Congo, para organizar a fuga do lugar. Eles usaram motos para deixar a Vila Kennedy e, para facilitar a escapada, atiraram contra transformadores, deixando a região às escuras.

Durante a madrugada de quarta, traficantes em motocicletas circularam armados pelas ruas da comunidade e deram tiros para o alto. Eles intimidaram comerciantes e moradores, fazendo ameaças àqueles que apoiarem a pacificação. Pela manhã, operários trabalhavam para consertar os transformadores e restabelecer o fornecimento de energia elétrica. Uma das equipes recebeu ameaças, supostamente de traficantes.

quarta-feira, 12 de março de 2014

UM PACTO PELA PAZ



Beltrame sempre sonhou com uma ocupação de cidadania realizada pelo Estado, com a indispensável ajuda das outras instâncias: saúde, educação, cultura, meio ambiente

ZUENIR VENTURA
O GLOBO
Publicado:12/03/14 - 0h00



O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, disse à repórter Vera Araújo que a reação do tráfico, executando policiais, é sinal de que a expansão das UPPs “está incomodando”. Será? Talvez seja mais do que isso, pois elas já incomodavam antes. O que está ocorrendo agora parece ser uma atrevida tentativa de inversão de papéis e volta ao passado: os traficantes, que até então se encontravam fora dos morros ou escondidos, passaram ao ataque, à ação ostensiva, colocando a polícia em posição defensiva. Diante disso, o secretário admitiu a possibilidade de reocupar o Complexo do Alemão, por exemplo, com apoio das Forças Armadas e da Polícia Federal. É verdade que quando isso aconteceu em 2010 houve aquela cena emblemática de centenas de bandidos fugindo como ratos. Mas e agora? Dos 15 soldados executados no Estado este ano, pelo menos três serviam ali. A experiência de seis anos da nova política de segurança demonstrou que invadir é tarefa mais fácil do que consolidar a conquista por meio da adesão da população, da convivência e da confiança mútua.

Beltrame nunca escondeu que a retomada do território aos bandidos era apenas o primeiro passo. Ele sempre sonhou com uma ocupação de cidadania realizada pelo Estado, com a indispensável ajuda das outras instâncias: saúde, educação, cultura, meio ambiente. “Polícia só não é solução”, repetiu várias vezes. Entre outras dificuldades, ele aponta a densidade demográfica e uma topografia que não permite acessos, a não ser por vielas e becos, onde, conforme diz, duas ou três pessoas armadas conseguem fazer frente a 20 policiais, pois conhecem bem as rotas de fuga. Ele reconhece que é tabu falar da necessidade de criar espaços, de remover favelas, “mas sem essa medida fica difícil patrulhar”, ele ousa afirmar. Por fim, convida os moradores das comunidades a analisar o antes e o depois da pacificação e escolher o que é melhor.

Essa escolha deveria ser feita também pela população em geral. A próxima campanha eleitoral é um bom momento para os candidatos se posicionarem sobre a questão. Algumas de nossas mais sensatas cabeças pensantes, analistas acima de partidos e ideologia, têm se manifestado pela preservação do projeto comandado por Beltrame. Admitem críticas, correções e aperfeiçoamentos, mas sabem que o fim dele só interessa aos bandidos, à banda podre da polícia e à não menos podre da política. Será interessante saber o que cada um que pretende ser governador tem a dizer. Aliás, para não haver dúvidas, por que não convocá-los a assumir logo de saída um compromisso público, uma espécie de pacto de defesa das UPPs e da paz no Rio?

POLICIAMENTO REFORÇADO NA FAVELA NOVA BRASÍLIA


Polícia investiga se traficantes obrigaram moradores a fazer protesto no Complexo do Alemão. Segurança está reforçada na Favela Nova Brasília nesta manhã. Na terça-feira, manifestantes incendearam objetos na região


ANA CLÁUDIA COSTA
O GLOBO 12/03/2014



Policiais abordam motociclista na Favela Nova Brasília Gabriel de Paiva / Agência O Globo


RIO - O comandante da Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP), coronel Frederico Caldas, disse que há informações de que a manifestação desta terça-feira na Estrada do Itararé, no Complexo do Alemão, tenha sido orquestrada por traficantes. Ele afirmou que há indícios de que moradores foram obrigados pelo tráfico a irem para a rua fazer o protesto. Desde o início da manhã, policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Complexo do Alemão, na Zona Norte, com apoio de homens de outras unidades pacificadores reforçam a segurança na Favela Nova Brasília. No patrulhamento, os PMs abordam pedestres e motocicletas na região.

Segundo Frederico Caldas, ele disse ainda que a operação padrão visa a apreender drogas na comunidade. Durante a madrugada, o policiamento havia sido reforçado na região por homens do batalhões de Operações Policiais Especiais (Bope) e de Choque (BPChoque) devido a um violento protesto de moradores.

A manifestação na noite desta terça-feira ocorreu na altura da Grota, onde fica um dos acessos à comunidade, e fechou parcialmente a Avenida Itararé. Os manifestantes acusam a Polícia Civil de ter prendido injustamente Kleyton da Rocha Afonso e Hallan Marcilio Gonçalves — os dois estavam num grupo de oito supostos criminosos detidos segunda-feira no complexo de favelas.

A operação tinha o objetivo de combater o tráfico de drogas na região e localizar os envolvidos na morte do policial militar Rodrigo de Souza Paes Leme, na quinta-feira passada. Um vídeo postado por Roberto Casas Novas, fotógrafo do jornal “Voz da Comunidade”, mostra parte do confronto com a PM. Pelas imagens é possível ver a explosão de bombas de efeito moral.

Durante a manifestação, dois rapazes foram feridos por tiros de raspão. Ambos foram atendidos na UPA do Complexo do Alemão e liberados. Uma barricada de lixo acumulado e outros materiais, como colchões e entulhos, foi incendiada na altura do Colégio Estadual Jornalista Tim Lopes. Moradores relataram ter ouvido muitos tiros durante o protesto. Além disso, ônibus teriam sido apedrejados. Segundo a assessoria da UPP, um manifestante foi flagrado com uma arma de fogo. Ao ser abordado por PMs, ele atirou para cima e fugiu.

AÇÃO ORQUESTRADA NO ATAQUE A CARRO DA PM


Ataque a carro da PM na Rocinha parece ação orquestrada pelo tráfico, diz comandante. Ataque foi flagrado no dia 25 de dezembro do ano passado

ANA CLÁUDIA COSTA 
O GLOBO
Atualizado:12/03/14 - 11h41


O momento em que o carro da PM foi cercado por moradores na Rocinha, que logo depois depredaram o veículo e atacaram policiais Marcelo Carnaval / Reprodução / TV Globo


RIO - O comandante-geral da Polícia Militar, coronel Luís Castro, disse após analisar o vídeo feito na Rocinha, onde populares depredam uma da PM e agridem policiais, que as imagens mostram que parece ser uma atitude orquestrada pelo tráfico para dificultar a atuação dos policiais. O coronel aproveitou para parabenizar e elogiar a atitude dos policiais da UPP, que não reagiram às agressões e provocações em uma rua da Rocinha.

O ataque foi no último dia 25 de dezembro. O grupo de homens, que seriam “prestadores de serviço” do tráfico, atacou um carro da UPP. Cerca de 15 pessoas, todas sem fuzis ou pistolas, encurralaram um carro da PM numa via da favela, à luz do dia, e passaram a depredar o veículo: elas jogaram tijolos e quebraram os vidros laterais e traseiros do automóvel. Quatro dos manifestantes agrediram os policiais, que não reagiram. As cenas de agressão foram mostradas nesta terça-feira no “Jornal Nacional”, da Rede Globo. De acordo com a reportagem exibida, ações como essa seriam realizadas, a mando dos traficantes, para atrapalhar o trabalho da Unidade de Polícia Pacificadora no local.

As imagens foram gravadas pelas câmeras da UPP e do próprio carro da PM. A confusão teria começado depois da apreensão de uma mochila, com armas e drogas, pela equipe da Polícia Militar cercada. Depois de muita discussão, é possível ver um homem jogar dois tijolos no carro da unidade. Em seguida, ele empurrou e chutou um policial. O PM tentou prendê-lo, mas foi contido por uma outra pessoa. O vídeo mostra um rapaz de camisa verde-escura atingir o carro com uma pá. Foram oito golpes, que quebraram os vidros. Um outro jovem bateu no veículo com um cabo de vassoura, e mais tijolos acertaram o automóvel.

Quatro suspeitos identificados

A polícia já conseguiu identificar quatro suspeitos que, segundo o delegado, participaram do quebra-quebra. São eles: Alex Duarte Monteiro, de 21 anos; Clayton Vieira Alves, de 25, que teria jogado os tijolos no veículo e agredido um dos PMs; Jony Moreira de Lima, de 21 anos, que seria o rapaz que usou uma pá; e Leandro Oliveira Coelho, de 31, que teria, no início do tumulto, tentado conter os ânimos, mas, depois, participado do ataque.

O delegado informou que todos têm passagens pela polícia e que vai pedir a prisão deles por sete crimes.

APÓS ANÚNCIO DE OCUPAÇÃO, BAIRRO VIVE DIA DE ANSIEDADE E BARRICADAS


Vila Kennedy vive dia de ansiedade antes de chegada da UPP. Após anúncio de ocupação, moradores estão desconfiados com movimentação de pessoas estranhas. Há barricadas nos acessos aos pontos de venda de drogas

GUSTAVO GOULART
SÉRGIO RAMALHO
O GLOBO
Atualizado:12/03/14 - 12h28


Vila Kennedy vai receber a 38ª UPP do Rio - Alexandre Cassiano / Agência O Globo


RIO - O clima é de muita expectativa na Vila Kennedy após o anúncio de que o Bope e o Batalhão de Choque (BPChoque) vão ocupar a vila nesta quinta-feira para implantar a 38ª Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Rio. Barricadas podiam ser vistas nos acessos aos pontos de venda de drogas. Ao percorrer as ruas da Vila Kennedy, de carro e a pé, uma equipe do GLOBO viu pessoas ansiosas, desconfiadas de pessoas estranhas. A apreensão é grande entre moradores, temor explicado pelo vaivém de jovens em motos, que intimidam moradores e jornalistas.

Numa das ruas na Metral, comunidade do bairro, a equipe de reportagem foi abordada por dois homens enquanto fotografava um barreira improvisada com pedaços de concreto para impedindo o acesso de veículos. As barreiras se multiplicam num trecho da Vila Kennedy quase às margens da Avenida Brasil. Uma delas, feita com pedaços de madeira, ardia em chamas. Apesar de uma certa falta de tranquilidade, homens da Comlurb trabalhavam na limpeza de ruas, algumas com grande concentração de jovens circulando a pé ou em motos. Um comerciante, que pediu para não ser identificado, disse que desde o fim de semana traficantes estão impondo toque de recolher, sobretudo, na Metral.

Na noite anterior, a comunidade chegou a ficar sem luz. Durante a madrugada, traficantes que usavam motocicletas circularam armados pelas ruas da comunidade, deram tiros para o alto. Eles intimidaram comerciantes e moradores com ameças para aqueles que vierem a apoiar a pacificação.

Nesta quarta-feira, grupos de traficantes se preparavam para fugir em várias motocicletas. Eles se reuniram no seu quartel-general, na Rua Congo, para organizar a saída da comunidade. Sem se identificarem, alguns moradores falaram sobre suas expectativas.

— O nosso maior medo é das consequências de um tiroteio. O que as pessoas devem fazer? Era preciso haver uma orientação. Ficar em casa? Sair mais cedo para o trabalho? — perguntou um morador.

Uma disputa de traficantes por território tem amedrontado os cerca de 100 mil moradores da Vila Kennedy, um conjunto habitacional inaugurado há 50 anos na Zona Oeste, para onde foram levados moradores removidos de favelas de Botafogo e do Maracanã. A comunidade é atravessada pela Avenida Brasil. O bairro ainda tem característica de zona rural, com plantações de banana e aipim dividindo espaço com trechos de mata em morros, onde traficantes buscam refúgio. É nessa área, segundo moradores, que os criminosos ocultam armas, drogas e mantém acampamentos para escapar da ação policial.

Em fevereiro, houve diversos tiroteios na região. No último dia 23, três ônibus foram incendiados em uma manifestação de moradores, que chegou a interditar a Avenida Brasil e deixar mais de dois mil alunos sem aulas.

A disputa por território entre quadrilhas de traficantes tem com pano de fundo uma briga entre Aldair Marlon Duarte, o Aldair da Mangueira, nascido em Manguinhos, e Fábio Augusto de Souza, o Fabinho Noronha. Aldair decretou a morte de Fabinho por causa de uma desavença envolvendo a mulher do primeiro. Isso apenas reforçou o desejo de Fabinho de deixar sua facção, por se sentir desprestigiado na favela. Ele era visto com frequência conversando, na Vila Aliança, com o então rival Márcio José Sabino Pereira, o Matemático, antes de sua morte, há nove meses. Em fevereiro, Marcelo Santos das Dores, o Menor P, sucessor de Matemático, teria dado apoio para Fabinho mudar de quadrilha.

Em meados de fevereiro, Fabinho, Felipe da Silva Caetano Costa, o Zebrião — atual “gerente-geral” da Vila Aliança —, e mais de 40 criminosos saíram da Aliança rumo à Vila Kennedy com roupas pretas e boinas. PMs informaram que eles ficaram dois dias na mata, junto à Vila Kennedy. Depois, conseguiram chegar até a Praça da Vila Kennedy, dando início a um tiroteio que durou todo o dia e incluiu PMs que já ocupavam o lugar.

Chefes já teriam fugido

Pouco antes da ocupação da Vila Kennedy, os gerentes do tráfico não estão mais no local, de acordo com o EXTRA. Segundo investigações da Polícia Civil, os membros mais altos da hierarquia do tráfico fugiram para a favela Nova Holanda, no Complexo da Maré, Zona Norte da cidade. Um deles, já identificado pela polícia, é Max André Lopes Santos, de 29 anos, o Naya, que aparece numa imagem chefiando um bando de sete homens, armados com quatro fuzis e duas pistolas.

O antecessor de Naya à frente do tráfico na região também não está mais na Vila Kennedy. Fabinho Noronha foi expulso há cerca de duas semanas e se refugiou em Acari.

Iniciativa americana

A construção do conjunto habitacional teve origem num programa chamado Aliança Para o Progresso, criado pelo presidente americano John Kennedy para financiar projetos sociais na América Latina, a fim de combater o comunismo. O Brasil então assinou um acordo com os EUA e passou a integrar a lista dos países latino-americanos beneficiados. Vila Esperança seria o nome do novo bairro, mas foi mudado para homenagear o presidente dos Estados Unidos após a sua morte, em Dallas.

O governo resolveu aplicar os recursos vindos da União na construção de bairros proletários para pôr fim à favelização na Zona Sul da cidade. Havia uma área de 964.207 metros quadrados, entre o Distrito Industrial de Bangu e a Zona Rural de Campo Grande. Dona Rita lembra as dificuldades do momento. A Praça Miami, de acordo com Alex Belchior, foi batizada com esse nome em razão da visita do então prefeito da cidade americana à Vila Kennedy. Ele foi entregar entregar uma carta da viúva de John Kennedy, Jaqueline Kennedy, agradecendo a homenagem feita a seu marido.

terça-feira, 11 de março de 2014

EXÉRCITO PARA REOCUPAR O ALEMÃO


O Estado de S. Paulo, 10 de março de 2014 | 17h 33

Beltrame não descarta usar Exército para reocupar Complexo do Alemão. Nesta segunda-feira, uma operação foi realizada no local para cumprir 14 mandados de prisão contra suspeitos de ataques a policiais

Marcelo Gomes



RIO - Diante do recrudescimento da violência do tráfico nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, o secretário de Segurança do Estado do Rio, José Mariano Beltrame, disse que não descarta a possibilidade de pedir ajuda ao Exército para reocupar o território. A Força de Pacificação do Exército permaneceu nos dois conjuntos de favelas até meados de 2012, quando foram inauguradas oito Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) na região.

Considerado o quartel-general do Comando Vermelho, os complexos do Alemão e da Penha foram invadidos pelas forças de segurança em novembro de 2010, após uma onda de ataques a ônibus e postos policiais que levou pânico à cidade. Nesta segunda-feira, 10, uma operação da Polícia Civil prendeu oito suspeitos de participação nos ataques à UPP Nova Brasília, à 45ª Delegacia de Polícia (em janeiro) e ao policial Rodrigo Paes Leme, de 33 anos, que foi morto na semana passada.

Enquanto as Forças Armadas atuaram no local, eram raros os episódios de violência e tiroteios com traficantes. No entanto, dois incidentes envolvendo militares que participavam da Força de Pacificação causaram desconforto nas autoridades: o sumiço de um fuzil do Exército, e o furto de uma chopeira e dos aparelhos de ar-condicionado das casas de dois moradores da favela.

No primeiro caso, o Inquérito Policial Militar (IPM) aberto pelo Exército para apurar o caso foi arquivado pela Justiça Militar em junho do ano passado, atendendo parecer do Ministério Público Militar (MPM). E no segundo episódio, conforme o Estado noticiou em julho de 2012, o primeiro-tenente Luiz Octávio de Goes Freitas foi o único acusado do crime. Ao Estado, o advogado do oficial disse que os objetos foram achados, e não furtados. O processo tramita na 4ª Auditoria da Justiça Militar no Rio. O militar responde em liberdade. A próxima audiência está marcada para 13 de maio, quando será ouvida uma testemunha da acusação.

Operação no Alemão. O objetivo da incursão desta segunda-feira, 10, era cumprir 14 mandados de prisão temporária contra suspeitos dos atentados à UPP Nova Brasília e à 45ª DP, ocorridos entre a noite de 28 de janeiro e a madrugada seguinte, e do ataque que resultou na morte do soldado Paes Leme na última quinta-feira, 6. Desde o início do programa de pacificação, em dezembro de 2008, dez PMs foram mortos em serviço em favelas com UPPs.

Entre os presos, está o segurança de uma estação do teleférico do Complexo do Alemão. Morador da comunidade, Marcondes Gomes de Oliveira era funcionário de uma empresa terceirizada que presta serviço à SuperVia, concessionária que opera o teleférico. Ele seria "olheiro" do tráfico, isto é, repassava aos criminosos informações sobre a movimentação da polícia na favela. Com ele, foi encontrado um celular com várias mensagens de traficantes fazendo perguntas sobre a operação desta segunda-feira no local.

Também foram presos Paulo Philipp Alves da Silva, o Filipinho, "gerente" da venda de drogas na localidade conhecida como Praça do Terço; Kleyton da Rocha Afonso, "gerente" da localidade Chuveirinho; Halan Marcilio Gonçalves, Cesar Silva Lima, o Cesinha; e Vinicius Cruz Macedo. Além dos adultos, dois menores foram apreendidos.

Entre os foragidos está Eduardo Fernandes de Oliveira, conhecido como 2D, que seria o atual chefe das bocas de fumo no Alemão.

"A operação desta segunda-feira, 10, foi um desdobramento da realizada no dia 12 de fevereiro, quando prendemos 16 pessoas nos complexos do Alemão e da Penha suspeitas de envolvimento nos ataques. A investigação vai continuar e em breve serão realizadas novas incursões para prendermos traficantes", afirmou o delegado Felipe Curi, da 45ª DP.

Mortes de PMs. O delegado Rivaldo Barbosa, da Divisão de Homicídios, declarou que o autor dos disparos que mataram o soldado Rodrigo Paes Leme na Favela Nova Brasília já foi identificado. Igor Cristiano Santos de Freitas, o Salgadinho, de 26 anos, não foi localizado nesta segunda-feira, 10, e é considerado foragido.

Barbosa disse ainda que o assassinato da soldado Alda Rafael Castilho, de 26 anos, lotada na UPP Parque Proletário, no Complexo da Penha, também já foi elucidado. O crime ocorreu no dia 2 de fevereiro. "Os três envolvidos neste crime já estão identificados e com a prisão decretada. São dois adultos e um menor. Vamos continuar as operações para prendê-los", prometeu.