O Rio de Janeiro é o espelho do Brasil. O que ocorre no Rio de Janeiro fatalmente se transmitirá em cadeia para os outros Estados da Federação. As questões de justiça criminal e ordem pública não fogem desta regra. Portanto, é estratégico manter a atenção, estudar o cenário, analisar as experiências e observar as políticas lá realizadas, ajudando no alcance dos objetivos. A solução desta guerra envolve leis duras e um Sistema de Justiça Criminal integrado, ágil, coativo e comprometido em garantir o direito da população à segurança pública.

domingo, 28 de dezembro de 2014

HOSPITAL DO TRÁFICO EM FAVELA DO RIO



Criminosos mantinham "hospital do tráfico" em favela do Rio. Posto médico foi montado em barraco no Complexo do Alemão para atender bandidos feridos em confronto com policiais

HUDSON CORRÊA
13/12/2014 10h00




UPP no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro (Foto: Severino Silva/Agência O Dia/Estadão Conteúdo)

Traficantes passaram a adotar táticas de guerrilha para enfrentar a polícia militar nas favelas pacificadas do Rio de Janeiro. Os criminosos também recrutam adolescentes, até de 15 anos, para chefiar a venda de drogas, como revela a edição desta semana de ÉPOCA. São novas estratégias do tráfico contra a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora nos morros cariocas. Antes das UPPs, moradores estavam habituados a encontrar traficantes armados com fuzis e pistolas caminhando despreocupadamente pelas ruas das favelas. Depois da pacificação, eles continuam armados, mas de forma menos ostensiva. Escondem-se em vielas e, aproveitando-se do fato de conhecer melhor a geografia daqueles locais, preparam emboscadas contra os policiais. Investigadores da Polícia Civil descobriram até um "hospital do tráfico", montado por bandidos, para receber feridos nos confrontos. O posto de atendimento médico ficava em um barraco numa rua sem saída da favela de Nova Brasília, localizada no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio.



Logo após as ocupações da polícia, os bandidos se refugiaram em comunidades sem policiamento, onde preparam e embalam a cocaína, a maconha e o crack que serão vendidos em bocas de fumo espalhadas nas grandes favelas da cidade. A venda pulverizada não evitou um aumento de 260% nas apreensões de drogas, feitas em áreas de UPPs, nos últimos anos. Para compensar o prejuízo, os traficantes começaram a agir como as milícias, cobrando de moradores taxas pelo fornecimento de botijões de gás, de galões de água mineral e acesso a TV a cabo clandestina, a chamada “gatonet”.

Entre abril e setembro deste ano, a Polícia Civil prendeu mais de 60 pessoas sob acusação de envolvimento com o tráfico e com a morte de policiais de UPPs, só neste ano ocorreram oito assassinatos. Um dos presos foi Bruno Eduardo da Silva Procópio, de 34 anos, conhecido como Piná, que agia na favela do Parque do Proletário, também localizada no Alemão. Segundo a polícia, Piná recebia ordens dos chefes da facção Comando Vermelho detidos em presídios federais de segurança máxima para atacar UPPs. Ele foi transferido em junho para a penitenciária federal de Porto Velho, em Rondônia.

Preso, um dos membros da quadrilha de Piná resolveu delatar os comparsas e relatou como e por que o tráfico ataca. Lindemberg Matias da Silva, de 22 anos, conhecido como Anão, disse que os policiais do Parque Proletário aumentaram a repressão ao tráfico, o que levou um grupo de bandidos a decidir usar seus fuzis para atingir a sede da UPP. No ataque, a soldado Alda Rafael Castilho morreu com um tiro na barriga. Três meses antes, em novembro de 2013, o também soldado Melquizedeque dos Santos Basílio fora morto com tiros nas costas enquanto fazia patrulhamento no Parque Proletário. Lindemberg afirmou que o crime foi encomendado por Piná, chefe do tráfico, e executado por homens em dois carros.

O NOVO DESAFIO DA PACIFICAÇÃO NO RIO DE JANEIRO



REVISTA ÉPOCA 27/12/2014 10h00

Traficantes recrutam menores de idade para chefiar o tráfico nas favelas cariocas

HUDSON CORRÊA




MANIFESTAÇÃO
Protesto em Copacabana na semana passada. Ao todo, 152 policiais foram assassinados no Rio de Janeiro nos últimos dois anos. O documento obtido por ÉPOCA revela a participação de menores nos assassinatos (Foto: Glaucon Fernandes/Eleven/Ag. O Globo)



A pacificação das favelas cariocas começou em 2008 e avançou para valer no final de 2010, quando a polícia ocupou o Complexo do Alemão, na Zona Norte, a maior fortaleza dos traficantes no Rio de Janeiro. Quatro anos depois, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) têm resultados para mostrar. Segundo um estudo divulgado na semana passada, elas reduziram em 65,5% os homicídios dolosos nas 50 favelas em que estão instaladas. As mortes em operações policiais caíram 90,7%. As UPPs enfrentam, no entanto, um novo desafio. Os bandidos de início recuaram, agora reagem às ocupações com emboscadas cada vez mais mortíferas. De janeiro a outubro deste ano, 15 policiais militares em serviço foram assassinados, oito deles trabalhando nas UPPs. Em 2013, dos 16 policiais mortos em ação, apenas três eram de UPPs. ÉPOCA teve acesso a documentos de investigações da Polícia Civil sobre como agem as quadrilhas que atacam os policiais. As investigações mostraram um dado novo e preocupante: o tráfico passou a recrutar menores de idade para postos de comando.


Jovens sempre foram arregimentados por traficantes, mas exerciam funções secundárias no comércio de drogas – transportavam pequenas quantidades de entorpecentes ou eram encarregados de disparar fogos de artifício como sinal da chegada da polícia. Agora, os meninos do tráfico viraram chefes. Por ser menores, eles recebem punições mais brandas quando estão presos, e logo estão livres para voltar ao “trabalho”. O adolescente G.A., de 15 anos, é o exemplo mais recente desse novo método dos traficantes. Ele mora com os pais no Complexo do Alemão, parou de estudar no 7º ano do ensino fundamental e dizia trabalhar numa mercearia, com salário de R$ 250 por semana. Em setembro, depois de uma grande operação contra o tráfico na região, o Ministério Público Estadual apontou G.A. como um dos principais gerentes da venda de drogas, encarregado de administrar e proteger da polícia a boca de fumo.



Segundo os investigadores, G.A. faz parte da quadrilha responsável pelo assassinato, em 11 de setembro, do capitão da PM Uanderson Manoel da Silva, de 34 anos. Responsável pela UPP de Nova Brasília, uma das favelas do Alemão, Uanderson foi o primeiro comandante morto em confronto com o tráfico. Por quatro anos, nenhum policial em Unidades Pacificadoras foi assassinado. Desde 2012, quando ocorreu a primeira morte, 15 já foram vítimas. Sete deles estavam em unidades no Alemão.

G.A., o suspeito de envolvimento na morte de Uanderson, passou um mês internado numa instituição para menores infratores. No fim de outubro, foi colocado em liberdade assistida, com a condição de que prestasse serviços à comunidade durante três meses. A Justiça não informou se ele já começou a cumprir o determinado. G.A. não é o único menor suspeito de envolvimento na morte de PMs. Dez adolescentes, com idade entre 15 e 17 anos, foram identificados pela Polícia Civil. Além de G.A., outros dois ocupam a função de gerentes do tráfico. Seis foram levados para instituições de reeducação e já estão em liberdade. Um está foragido. O crescente envolvimento de menores com crimes mais graves levou o secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, a defender em entrevista a ÉPOCA a redução da maioridade penal para esses casos.

A polícia também está atrás dos aliciadores de menores. Edson Silva de Souza, de 27 anos, conhecido como Orelha, foi preso sob suspeita de ter recrutado sete menores para seu bando, dois para o cargo de gerente do tráfico. Em novembro, Edson foi solto graças a um habeas corpus. Um novo mandado de prisão foi expedido, mas ele agora está foragido. O serviço disque-denúncia, que mantém parceria com a Secretaria de Segurança Pública, ofereceu uma recompensa de R$ 20 mil por informações que levem a sua captura.

Em outra estratégia para enfraquecer a pacificação, traficantes se infiltram nos protestos de moradores de favelas para causar tumultos. Os protestos acabam em violentos ataques às sedes das UPPs. No dia 27 de abril passado, uma escuta telefônica autorizada pela Justiça captou a conversa entre um gerente do tráfico e sua comparsa. Ela disse que reunira mais de 50 pessoas para atear fogo na sede da UPP do Alemão. Naquela noite, a base da UPP se salvou. Quatro ônibus foram incendiados, e um posto médico depredado. A polícia identificou um menor de idade entre os mentores da ação criminosa.

A violência crescente contra policiais militares é um tema grave que começa a mobilizar os cariocas. Em protesto organizado pela ONG Rio de Paz, no início do mês, 152 cruzes de madeira foram fincadas nas areias da Praia de Copacabana. Cada uma delas representava um policial morto, durante sua folga ou em serviço, nos últimos dois anos.

domingo, 21 de dezembro de 2014

LÍDER COMUNITÁRIO DO ALEMÃO É ASSASSINADO

VEJA ONLINE 21/12/2014 - 11:24


Líder comunitário de favela é assassinado em centro cultural . Guinha era militante da causa gay e fundador de Grupo Diversidade do Alemão





Polícia reforçou a segurança no Complexo do Alemão, após protesto (Reprodução/TV/VEJA)

O presidente da Associação de Moradores do Conjunto das Casinhas, na comunidade da Fazendinha, no Complexo do Alemão (zona norte), Luiz Antônio de Moura, de 41 anos, foi assassinado na tarde de ontem. Conhecido como Guinha, ele foi baleado em um centro cultural da comunidade. Guinha era militante da causa gay e fundador do Grupo Diversidade LGBT do Alemão.



Os tiros foram disparados de dentro de um carro que passou em frente à casa. O crime é investigado pela Divisão de Homicídios (DH). Um rapaz de 18 anos foi atingido no braço, atendido em um hospital da região e está fora de perigo.

Em sua página no Facebook, Guinha publicou, nos últimos dias, fotos de festas e atividades comunitárias. O líder comunitário é personagem do documentário "Favela Gay", sobre a militância em defesa dos direitos dos homossexuais nas comunidades cariocas, produzido por Cacá Diegues e Renata de Almeida Magalhães. No filme, Guinha contou episódios de perseguição a homossexuais e transexuais do conjunto de favelas.

O líder comunitário dizia que, no passado, eram frequentes ataques comandados por traficantes. "Para eles, policial, x-9 (delator) e gay eram a mesma coisa", disse. A intolerância, afirmou, ficava mais grave com a presença de igrejas evangélicas nas favelas. "Nos cultos, nos atacam abertamente. Se o gay for espírita ou umbandista, complica ainda mais", lamentou.

Em nota, a Coordenadoria de Polícia Pacificadora informou que policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) ouviram os disparos e encontraram o corpo de Guinha, na localidade de Casinhas, no fim da tarde de ontem. O corpo foi levado para a Instituto Médico Legal (IML).

(Com Estadão Conteúdo)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

SE QUISER, MATO UM SOLDADO POR DIA

REVISTA VEJA, Edição 2403 de 10dez2014.


“Se quiser, mato um soldado por dia”, diz traficante da Maré. Um cabo do Exército, veterano da missão no Haiti, foi morto a tiros na favela carioca

Leslie Leitão





A TROPA ACUADA - Sepultamento do cabo Mikami: os militares estão em desvantagem nos domínios do tráfico no Complexo da Maré (Rafa Von Zuben/Código 19/Estadão Conteúdo)

Faltavam cinco dias para o cabo do Exército Brasileiro Michel Augusto Mikami, 21 anos, encerrar a terceira campanha real de sua curta carreira militar. A primeira foi a missão de paz da Organização das Nações Unidas no Haiti. E depois a Copa do Mundo. O plano de Mikami era voltar para casa, em Vinhedo, cidade vizinha a Campinas, no interior de São Paulo. Como parte da Força de Pacificação formada por 3 000 militares da Marinha e do Exército, Mikami patrulhava as vielas do Complexo da Maré, aglomerado de favelas na Zona Norte do Rio de Janeiro. A missão da tropa federal é apoiar a polícia do Rio no que se chamou apressada e exageradamente de “retomada do território do tráfico”. Na tarde da sexta-feira 28, em meio a um tiroteio com os bandidos donos do “território retomado”, o cabo Mikami foi atingido por uma bala de fuzil na cabeça, que o matou instantaneamente. Desde a ação para debelar a guerrilha comunista no Araguaia, em 1972, as Forças Armadas do Brasil não tinham um soldado morto em combate em território brasileiro. O cabo, enterrado com honras militares, é, porém, apenas mais um número da macabra estatística do combate ao crime no Rio de Janeiro. O ano de 2014 ainda não acabou e o número de policiais mortos a tiros por bandidos no Rio de Janeiro chegou a 106 na semana passada. Uma cifra assustadora quando comparada à de outros países. Sim, porque não há base de comparação com cidades. Em Nova York, neste ano, nem um único policial morreu assassinado a tiros por bandidos. Zero. Em todos os Estados Unidos, com quase uma vez e meia a população brasileira, tombaram baleados por bandidos 46 policiais. Menos da metade do que os bandidos mataram em 2014 só no Rio de Janeiro. Todos os estados americanos têm legislação que pune com mais severidade o cop killer, ou assassino de policial. Em Nova York, o cop killer, não importa a circunstância do crime, é enquadrado automaticamente na categoria mais severa do código penal, o assassinato em primeiro grau. O condenado nessa categoria não tem acesso a benefícios jurídicos, como a diminuição de pena por bom comportamento.

VEJA foi ao Complexo da Maré na quarta-feira passada, cinco dias depois da morte do cabo Mikami. O “território retomado”, a “comunidade pacificada”, da propaganda oficial, vivia sua rotina esquizofrênica. As ruas eram patrulhadas por jovens armados com pistolas e radiocomunicadores. A menos de 100 metros de um posto do Exército guarnecido com seis soldados, o carro da equipe de VEJA foi parado pelos traficantes e vistoriado. O gerente do grupo concordou em falar, sem se identificar, dentro de um bar. Ali, tranquilo, deu uma espantosa explicação para a coabitação de militares com bandidos em um mesmo território: os criminosos têm a vantagem por estarem bem armados e conhecerem melhor a região. A morte do cabo Mikami foi descrita por ele como um evento normal, incapaz de perturbar a “paz” do lugar: “Se a gente quisesse, matava um soldado por dia”.



O plano de pacificação que começou em 2008 no Rio de Janeiro teve sucessos iniciais estrondosos com favelas tomadas sem o disparo de um único tiro. No ponto mais alto dos morros, os policiais de elite hasteavam bandeiras do Brasil, do Rio de Janeiro e de suas corporações. Mas, sem que se desse a efetiva ocupação do território pelo estado, as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) instaladas nas favelas foram sendo isoladas até chegar à situação atual de monumentos ao fracasso de um plano que parecia vitorioso. Não é raro a guarnição de uma UPP pedir a intervenção de unidades de elite para conseguir sair de sua base. Só no conjunto de favelas do Alemão foram registradas quase duas centenas de tiroteios, escaramuças inconsequentes entre policiais e bandidos, sem que nenhum lado se declarasse vencedor.

Na famosa Favela da Rocinha, a presença constante de 700 policiais não consegue impor a ordem, tampouco impedir o tráfico de drogas e os crimes violentos associados a ele. Rajadas de fuzis automáticos cortam o céu noturno do morro que foi durante algum tempo a vitrine da política de pacificação na cidade. Entre os 267 policiais baleados neste ano, 79 foram feridos em combates em áreas de UPPs, onde oito morreram.

É melancólico constatar que sob o rótulo de “pacificação” esteja ocorrendo mesmo uma guerra. Além dos policiais mortos, perderam a vida no Rio de Janeiro até outubro 481 pessoas em circunstâncias oficialmente registradas em “autos de resistência”. Esse termo deveria descrever apenas situação em que, esgotadas todas as outras opções, a polícia recorre às armas para deter um criminoso. Infelizmente, no Rio de Janeiro, o “auto de resistência” pode ser mesmo a clássica “resistência seguida de morte”, mas serve também para encobrir ações de criminosos de farda. A boa notícia desse lado da trincheira é que as mortes de civis em operações policiais na cidade têm diminuído ano a ano: em 2007, antes do início das UPPs, foram 1 330. A má é que mais policiais estão sendo assassinados. “A verdade é que a polícia está matando menos, mas seus homens continuam morrendo como moscas”, diz Richard Ybars, antropólogo e policial civil.

A lógica mais simples levanta a seguinte questão quando alguém se detém diante da resistência do tráfico no Rio de Janeiro: se os morros não produzem drogas nem têm fábricas de armas pesadas, não seria o caso de, em vez de correr em vão atrás do varejo, impedir no atacado o fornecimento de cocaína e fuzis AK-47 aos bandidos? Raramente se consegue uma resposta satisfatória a essa pergunta. Uma fresta de luz, porém, entra no debate quando se analisam as favelas do Complexo da Maré. Com seus 130 000 habitantes, a Maré tem localização geográfica estratégica. Fica próxima do Aeroporto Internacional Tom Jobim e tem saída para o mar. A área é contígua às duas principais vias de trânsito da cidade, a Linha Vermelha e a Avenida Brasil. “A Maré é muito importante na geopolítica do tráfico, porque quase tudo passa por ela. Para os criminosos, é essencial comandá-la”, diz o sociólogo Cláudio Beato, especialista em segurança pública. Com sua óbvia importância tanto para o atacado quanto para o varejo do comércio ilegal de drogas, o Complexo da Maré deveria merecer atenção especial das autoridades. A região é policiada por soldados jovens vindos de diversas partes do Brasil e treinados — quando são — para outro tipo de batalha. “Essa guerra não é nossa”, disse um deles a VEJA. Não é mesmo. O militar das Forças Armadas é treinado para matar o inimigo. Suas armas são canhões, bazucas, carros de combate, jatos e navios de guerra. Reduzidas à função policial, as Forças Armadas correm o risco de ser desmoralizadas por ter sido colocadas em uma guerra que não podem vencer.


Brendan McDermid/Reuters
AÇÃO E REAÇÃO - Patrulhamento em Nova York, onde os assassinos de policiais recebem pena máxima

​O despreparo é uma queixa comum também em relação às forças que operam nas 38 UPPs do Rio — um contingente incrementado ao ritmo de até 500 homens por mês, formados a toque de caixa para cumprir a meta de pôr a segurança nas favelas nas mãos de uma tropa nova, livre de vícios. “A ânsia política de colocar novas turmas nos morros prejudica a formação”, afirma Paulo Storani, ex-capitão do Bope. A tropa das UPPs é de fato majoritariamente nova, mas nem por isso vícios como corrupção, desvios e apatia foram extirpados. “A intenção era ‘uppeizar’ a PM, mas o que se vê é a ‘peemização’ das UPPs”, diz Beato.

Entre setembro e outubro, duas operações do Ministério Público contra a corrupção na polícia puseram na cadeia mais de quarenta homens. Os promotores investigam ainda uma fraude milionária em unidades de saúde da corporação que deve levar à prisão de mais oficiais. Em consequência dessas denúncias, o comando da PM foi trocado. É um movimento positivo, mas será preciso bem mais do que operações episódicas para reverter a derrocada da segurança no Rio e impedir que as UPPs sejam lembradas apenas como mais uma das tantas utopias massacradas pela realidade.






sábado, 29 de novembro de 2014

MILITAR DA FORÇA DE PACIFICAÇÃO LEVA UM TIRO NA CABEÇA E MORRE




Do G1 Rio 28/11/2014 19h34

Vídeo mostra socorro a militar após levar tiro na cabeça na Maré. Nome do ferido e hospital para onde foi removido não foram informados. Força de Pacificação está na Maré desde o dia 5 de abril.






Um vídeo divulgado pelo RJTV mostra um militar do Exército no momento em que é socorrido após ser baleado na cabeça enquanto fazia um patrulhamento no Complexo da Maré, Zona Norte do Rio, nesta sexta-feira (28). Também na região, um blindado caiu num canal em outro ataque de criminosos.

O veículo blindado da Força de Pacificação que estava em patrulhamento na Região do Conjunto Esperança recebeu tiros de supostos envolvidos com facções criminosas.


Segundo a assessoria de imprensa da Força de Pacificação, os policiais responderam aos disparos e, ao manobrar o veículo, colidiram com o meio-fio e caíram no Canal da Avenida 2. O militar ferido recebeu os primeiros-socorros e foi levado para o hospital para receber cuidados médicos. O veículo não sofreu maiores danos. Um rádio transmissor foi apreendido.

O nome do ferido e o hospital para onde ele foi removido não foram informados pela Força de Pacificação por motivo de segurança.

Blindado perdeu o controle após ataque na Maré (Foto: Reprodução / Globo)

Ocupação desde abril


A Força de Pacificação está na Maré desde o dia 5 de abril, quando 2,7 mil militares ocuparam 15 comunidades do conjunto de favelas. Mas os confrontos têm sido frequentes. Desde o início da ocupação, mais de 400 pessoas foram presas e 158 menores apreendidos. Nas operações de combate ao tráfico, além de drogas, os militares também apreenderam veículos, motos, armamento e munição.


 Do G1 Rio 29/11/2014 13h25

Após morte de cabo, Pezão quer pedir permanência de Exército na Maré, Rio. Governador do RJ afirmou que pretende conversar com a presidente. Força de Pacificação está na Maré desde o dia 5 de abril.



Michel Mikami era de Vinhedo, no interior de São
Paulo (Foto: Reprodução / Facebook)

O governador Luiz Fernando Pezão afirmou neste sábado (29) que pretende conversar com a presidente Dilma Rousseff e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, para que a Força de Pacificação permaneça no Complexo da Maré após dezembro, prazo inicialmente previsto. Segundo Pezão, por conta da dificuldade que a comunidade representa, a ideia é que a Força de Pacificação continue ocupando a região até que novos policiais militares se formem no Rio.

"Uma comunidade ao lado da Avenida Brasil, da Linha Vermelha, perto do Galeão, que tinha um nível de violência inimaginável. Uma região que o tráfico dominou por mais de 30 anos. Isso mostra a dificuldade que nós temos. E, se não fosse essa parceria com a presidenta Dilma e as Forças Armadas, dificilmente conseguiríamos ter êxito na nossa política de pacificação", ressaltou o governador, durante inauguração das obras de ampliação do sistema de abastecimento de água de Piraí.

De acordo com o governador, com o apoio da Força de Pacificação na Maré, os policiais militares poderão continuar reforçando os batalhões do interior do estado. Pezão garantiu ainda que mais mil PMs serão formados até o fim deste ano.

Pesar da presidente

A presidente da República Dilma Rousseff também expressou seu pesar por meio de nota. O comunicado ressaltou que o militar "morreu no cumprimento do dever, na missão de pacificação empreendida pelo Exército Brasileiro". "Quero expressar minha dor e minha solidariedade à família e aos amigos de Michel", disse a presidente.

Ocupação desde abril

A Força de Pacificação está na Maré desde o dia 5 de abril, quando 2,7 mil militares ocuparam 15 comunidades do conjunto de favelas. Mas os confrontos têm sido frequentes. Desde o início da ocupação, mais de 400 pessoas foram presas e 158 menores apreendidos. Nas operações de combate ao tráfico, além de drogas, os militares também apreenderam veículos, motos, armamento e munição.

Militares se preparam para participar de operação da PM na Maré (Foto: Mariucha Machado/G1)

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

SARGENTO DA MARINHA GUARDAVA ARSENAL DE GUERRA DO TRÁFICO

Do G1 Rio 27/11/2014

Sargento da Marinha é preso com fuzis e metralhadoras do tráfico. Paiol foi encontrado na casa dele, em Padre Miguel. Material pertencia ao tráfico e drogas da comunidade Vila Vintém.





O sargento da Marinha Jerônimo Ronaldo Severino Pereira, de 42 anos, foi preso, nesta quinta-feira (27), por policiais da 6ª DP (Cidade Nova). Na garagem de sua casa, em Padre Miguel, na Zona Oeste do Rio, foram encontrados 10 fuzis, duas metralhadoras, nove pistolas e muitas munições. O material pertencia ao tráfico e drogas da comunidade Vila Vintém.

Material pertence ao tráfico e drogas da comunidade Vila Vintém (Foto: Divulgação/Polícia Civil)

Armas foram apreendidas na garagem do sargento da Marinha (Foto: Divulgação/Polícia Civil) 

sábado, 22 de novembro de 2014

POLICIAIS SÃO ATACADOS EM SEGUNDO DIA DE TIROTEIO NA ROCINHA

O DIA 22/11/2014 17:31:31

Policiais são atacados em segundo dia seguido de tiroteio na Rocinha. O pedido de encerramento de um baile onde estariam sendo vendidas drogas teria sido o estopim para o confronto armado

Nonato Viegas



Rio - Durou cerca de meia-hora a troca de tiros entre PMs da UPP da Rocinha e traficantes, na tarde deste sábado. É o segundo dia seguido de confronto. Não há informação de feridos, e equipes do Bope estão no local, fazendo varredura na região conhecida como Terrerão. Segundo informações da Coordenadoria das UPPs, traficantes chegaram a usar granadas contra os policiais, que pediram reforço.

O troca de tiros ocorreu quando oito PMs faziam patrulhamento a pé na Rua 1, Terrerão, quando foram atacados por bandidos armados por volta das 15h30.

Segundo a reportagem apurou, haveria um baile no local, e traficantes aproveitariam o evento para vender drogas. A Coordenadoria das UPPs, no entanto, informa que a unidade local não foi procurada com pedido de autorização para a realização do baile.


Tiroteios têm sido constantes na comunidade Foto: Foto: Fabio Gonçalves / Arquivo Agência O Dia

O confronto começou, segundo testemunhas, quando os policiais determinaram o desarme das caixas de som, que já começavam a ser instaladas.

O Bope ocupará a Rocinha até pelo menos domingo de manhã. Há relatos de que tem havido frequentes trocas de tiro entre PMs e traficantes.

Na sexta-feira, pela manhã, também houve tiroteio e o comércio fechou as portas. Em artigo publicado na edição de sábado do DIA , o coordenador do Movimento Popular de Favelas, William de Oliveira, afirmou que, morando há 43 anos na Rocinha, nunca ouviu tantos tiros diários na favela.


"O tiroteio voltou a fazer parte da rotina de uma das maiores favelas do Brasil", escreveu.

Até o fechamento desta reportagem, a Coordenação das UPPs não se pronunciou sobre o aumento dos confrontos entre PMs e traficantes no local.

Imprensa é recebida a tiros

Uma equipe de reportagem do jornal 'O Globo' foi recebida a tiros na manhã desta sexta-feira na Favela da Rocinha, em São Conrado, na Zona Sul.

Os jornalistas chegavam ao local para fazer uma matéria sobre desapropriações provocadas pelo alargamento de uma via na comunidade, parte das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC-2).




O Dia 22/11/2014 00:06:05

William de Oliveira: Rocinha em pé de guerra

Moro na Rocinha há 43 anos e nunca ouvi tantos tiros diários desde a guerra vivenciada em 2004, com a disputa de facções rivais



Rio - Moro na Rocinha há 43 anos e nunca ouvi tantos tiros diários desde a guerra vivenciada em 2004, com a disputa de facções rivais. O tiroteio voltou a fazer parte da rotina de uma das maiores favelas do Brasil. Sei que isso não acontece só na Rocinha, porque leio os jornais e acompanho os relatos de moradores da Maré, do Alemão e de outras comunidades consideradas “pacificadas”. No dia 13, completou três anos da pacificação e também de mais uma semana inteira de violência na Rocinha.


Não é fácil viver no meio de uma guerra travada como essa. O que devemos fazer para levar nossos filhos à escola? O que devemos fazer pra ter mais segurança? Como vamos sair para trabalhar? Escolas e creches não abrem. Equipamentos comunitários, comércio e instituições públicas também não.


É difícil acordar com o som do helicóptero, logo após os tiros e os fogos. A trilha sonora do horror ainda inclui os latidos de cachorros, a gritaria das crianças e, às vezes, alguns gritos de adultos. Sinto minha casa tremer com a passagem dos helicópteros dando seus voos rasantes pelas nossas lajes. Graças a Deus não houve uma tragédia maior. Não quero imaginar o que aconteceria se um deles caísse em cima das casas.


Para se andar pelos becos e vielas da favela é preciso estar com o alerta ligado todo tempo, independente de o céu estar repleto de estrelas ou infestado de balas traçantes. Depois do tiroteio, se ninguém foi alvejado por uma bala perdida, chega a hora de calcular os prejuízos, de contar os furos nas paredes, nas portas e nos produtos expostos dentro das lojas, que foram destruídos. Até hoje, ninguém pagou esse prejuízo.


Ao andar pelas ruas da minha comunidade, fico assustado com as dificuldades da vida do morador de favela. Fico me perguntando o porquê de tanta desigualdade. Durmo sem luz e acordo sem água no meio do tiroteio sem poder sair de casa. A Rocinha está ocupada desde 13 de novembro de 2011. Mas a pacificação ainda é um sonho distante. Além disso, o trabalho precisa ir mais além. Precisa incluir investimento na educação, em saneamento e na criação de oportunidades para a transformação social. É impossível resgatar a cidadania e trazer a paz para lugares abandonados por décadas apenas usando a força policial.


William de Oliveira é coordenador do Movimento Popular de Favelas