O Rio de Janeiro é o espelho do Brasil. O que ocorre no Rio de Janeiro fatalmente se transmitirá em cadeia para os outros Estados da Federação. As questões de justiça criminal e ordem pública não fogem desta regra. Portanto, é estratégico manter a atenção, estudar o cenário, analisar as experiências e observar as políticas lá realizadas, ajudando no alcance dos objetivos. A solução desta guerra envolve leis duras e um Sistema de Justiça Criminal integrado, ágil, coativo e comprometido em garantir o direito da população à segurança pública.

sexta-feira, 2 de março de 2012

MORADORES, COMERCIANTE E ATÉ BANDIDOS SE PREPARAM

Moradores, comerciantes e até bandidos já se preparam para pacificação de favelas - O GLOBO, 25/06/2011 às 18h39m; Selma Schmidt e Ediane Merola

RIO - Instalado na Avenida Brasil 4.900 e vizinho à Vila do João, o posto Passaredo mantém apenas duas bombas de combustível funcionando. A loja de conveniência está desativada, tem várias marcas de bala e serve para abrigar os seis empregados em dias de tiroteio. Mas o frentista Eduardo Cordeiro, de 62 anos, funcionário do lugar há cinco, revela: de olho na chegada de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) ao Complexo da Maré, um empresário comprou o posto e anunciou que vai reformá-lo, deixando o estabelecimento aberto 24 horas por dia.

- Não tenho reclamação. Nunca mexeram com a gente - diz Cordeiro, referindo-se aos bandidos. - Só que os clientes têm receio, se afastaram do posto.

Na contagem regressiva para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016, e após a ocupação da Mangueira no domingo passado, favelas e complexos estão se preparando para a pacificação. Moradores e representantes de entidades com sede em favelas - alguns pedindo anonimato, com medo de retaliações - revelam que, em comunidades próximas a lugares que sediarão as competições, a discussão sobre as UPPs corre de boca em boca. Não só entre moradores como entre comerciantes e até criminosos.

No Complexo da Maré, diz A., a facção criminosa que controla oito das 15 favelas já contabiliza perdas mensais de R$ 75 mil, sem contar o arrecadado com a venda de drogas. Os traficantes lucram mensalmente R$ 25 mil com a taxa paga por comerciantes. Outros R$ 50 mil são entregues por donos de mil máquinas caça-níqueis do Timbau e da Baixa do Sapateiro.

No Vidigal, para não atrair a atenção da polícia, o tráfico tem adotado estratégias, como evitar o uso de armamento pesado nas ruas.

- O tráfico não é ostensivo. Não se veem mais motoboys carregando traficantes armados. Em casa, é comum as famílias conversarem sobre a pacificação, mas evitam falar disso nas ruas - conta o morador R.

Na Maré, ocupação é esperada para julho

A expectativa na Maré é que a pacificação chegue ao complexo em julho. A aposta se deve à transferência da sede do Bope para a região e à saída das Forças Armadas do Alemão:

- Os militares poderiam sair do Alemão e ocupar a Maré. Quartéis do Exército são nossos vizinhos - diz A., morador há 40 anos do Timbau.

Segundo A., os três grupos de criminosos da região - a Maré é controlada por duas facções de traficantes e uma quadrilha de milicianos - já analisam os prós e contras da ocupação:

- O tráfico vai ter um exército menor e não precisará de armas. É menos custo. Dizem ainda que não vai haver uma paralisação total da venda de drogas, porque existe mercado.

Para o geógrafo Jailson de Souza e Silva, coordenador-geral do Observatório de Favelas, entidade com sede na Maré, a pacificação no complexo e em outras comunidades será sem confrontos:

- No Alemão era um grupo só, forte, que dominava uma área grande. A Maré é maior que o Alemão, mas é dividida entre organizações criminosas, o que diminui as possibilidades de reação. Além disso, se o Estado quiser, entra em qualquer lugar.

Não há como oferecer resistência. Eles (os criminosos) não são bobos nem loucos.
Jailson acha que a pacificação não deve ter como foco apenas a Copa e as Olimpíadas. E diz que a ocupação deve ser acompanhada de políticas públicas, para que a Maré alcance indicadores sociais e econômicos da média da cidade até 2016.

Presidente da Associação Comercial do Rio, Antenor Barros Leal afirma que a pacificação tem reflexos positivos na economia, pois incentiva a revitalização de áreas abandonadas no entorno de favelas e a legalização do comércio informal. Com a ocupação dos complexo da Maré, do Caju e de outras comunidades ao longo da Avenida Brasil, uma das vias de entrada da cidade, ele acredita que imóveis abandonados serão reocupados:

- Quanto mais empresas, mais empregos.

Na Avenida Brasil, quando traficantes do Parque Alegria, no Caju, e do Parque Arará, em Benfica, entram em guerra, motoristas ficam no meio do fogo cruzado. Nas duas comunidades, moradores sonham com uma UPP:

- Deveria existir UPP em todo lugar. Uma vizinha estava na laje e levou uma bala perdida - conta o aposentado S., que mora no Arará.

No Parque Alegria, o medo impera:

- Vivemos oprimidos. Acabou a história de tráfico proteger morador. Todos querem UPP, mas não podem falar - lamenta a dona de casa P.

A Secretaria de Segurança reafirma a meta de implantar 40 UPPs no estado até 2014 (já foram instaladas 18). Embora sem antecipar seu cronograma, o órgão confirma que o Parque Alegria está dentro do seu planejamento, assim como outras favelas das zonas Norte e Oeste.

Cotado para abrigar os jogos de rúgbi dos Jogos de 2016, o campo do Vasco da Gama é vizinho à favela Barreira do Vasco. Apesar da boa convivência, o presidente do clube, Roberto Dinamite, fala da importância de uma UPP na comunidade:

- Se haverá UPP na Mangueira e no Tuiuti, que ficam no entorno, por que não na Barreira do Vasco? - pergunta Dinamite. - Tudo que atende à demanda por segurança é bom para o Vasco e a população.

Na Barreira, até a Igreja Nossa Senhora dos Pobres e o posto policial estão furados a bala. Presidente da associação de moradores, Vânia de Souza diz que a expectativa é grande:

- Até na escola as crianças falam na pacificação. O nosso medo é que, depois das Olimpíadas, tudo acabe.

Na Zona Sul, há moradores com inveja de comunidades pacificadas:

- O morador quer ter o seu direito de ir e vir garantido - diz J., que vive na Rocinha.

A favela, próxima a bairros de classe média alta - São Conrado e Gávea - e de uma autoestrada, espera mais do que segurança:

- Brigamos para ter serviços públicos, inclusive a Defensoria Pública e o Tribunal de Justiça. Os usuários não vão deixar de usar drogas com a UPP. É preciso ressocializar - diz o presidente do Movimento Popular de Favelas, Willian de Oliveira.

Diretor de Urbanismo da Associação de Moradores do Alto Gávea, Luiz Fernando Peña espera que, a exemplo do Alemão, a ocupação da Rocinha ocorra sem violência e, no futuro, ajude a valorizar os imóveis da região. Vice-presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi), Ruben Vasconcelos confirma os benefícios da chegada de uma UPP:

- Na Tijuca, o metro quadrado era vendido a R$ 1.800 e, hoje, bateu os R$ 6 mil. No caso da Rocinha, a valorização é certa. Quando for implantada a UPP, o metro quadrado da Praia de São Conrado vai bater o da Barra.

Colada no Engenhão, a Favela Belém-Belém é pequena, com cerca de 200 casas, e controlada por milícia. O mesmo grupo está numa favela próxima, a Fernão Cardim. Moradores e comerciantes das duas comunidades esperam que, com a pacificação, deixem de pagar taxa aos milicianos:

- Todo mês, as famílias pagam R$ 10 e os comerciantes R$ 20 para os milicianos - conta H.

Não muito distante do Engenhão, a Favela do Jacarezinho também está na rota da pacificação. Presidente da associação de moradores, o MC Serginho defende a população.

- O Jacarezinho é pacífico. Aqui não tem agressão a policial, fechamento de rua - diz Serginho, que também luta pela inclusão social. - A comunidade está abandonada.
A Zona Oeste também está na lista de espera pela UPP. Na Favela do Fumacê, em Realengo, perto dos equipamentos olímpicos de Deodoro, os moradores querem a pacificação para evitar mortes como a de um jovem de 14 anos, atingido por bala perdida enquanto jogava bola:

- O povo aqui ia ficar muito feliz com a UPP - diz M.

Presidente da Federação de Favelas do Estado do Rio, Rossino Castro Diniz diz que as favelas não aguentam mais tráfico e milícia.

- O estado tem que fazer algo. Em 80% das favelas ainda há tráfico, só acabou o armamento ostensivo. Se isso não for corrigido, teremos problemas na Copa e nas Olimpíadas.

BANDIDOS ATACAM SEGURANÇAS DO GOVERNADOR

Seguranças de Sérgio Cabral trocam tiros com bandidos no Caju - POR DIOGO DIAS - O DIA, 22/06/2011

Rio - Os seguranças do governador Sérgio Cabral trocaram tiros com bandidos durante uma tentativa de assalto, na manhã desta quarta-feira, próximo à Favela Parque Alegria, no Caju, Zona Portuária do Rio. Minutos antes, Cabral havia deixado o Cemitério do Caju de helicóptero e nem viu a ação. A residência de uma moradora foi atingida por disparos e teve as paredes marcadas.

O governador esteve no Cemitério do Caju para acompanhar a cerimônia de cremação de Jordana Kfouri Cavendish, morta em um acidente de helicóptero com outras seis pessoas, na noite da última sexta-feira, na Bahia.

O grupo de seguranças deixava o local em carros e motocicletas. Na Avenida Brasil, próximo ao Viaduto da Favela Parque Alegria, homens armados abordaram o motociclista e primeiro da comitiva de seguranças quando um outro carro com guarda-costas de Cabral abriu fogo contra eles. Um homem do grupo de bandidos, estimado em dez integrantes, foi atingido.

Após a intensa troca de tiros, os criminosos fugiram para o interior da comunidade. Policiais do 4º Batalhão (Caju) e do posto de policiamento comunitário do Caju fizeram buscas, mas os ladrões não foram localizados.

Em nota enviada à imprensa, o Governo do Estado esclareceu o incidente informando que não havia autoridade alguma na comitiva, apenas seguranças que seguiam para o Palácio Laranjeiras no momento da abordagem. O caso foi registrado na 17ª DP (São Cristóvão)", informa a nota.

A GUERRA DO RIO - OITO TRAFICANTES MORREM AO ENFRENTAREM BOPE

Combate ao tráfico. Traficantes são mortos em ação do Bope no Morro do Engenho da Rainha para buscar traficantes foragidos da Mangueira - O GLOBO, 23/06/2011 às 11h55m; Ana Claudia Costa (accosta@oglobo.com.br)


RIO - Oito suspeitos foram mortos numa ação dos policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) no Morro do Engenho da Rainha, no Engenho da Rainha, que começou à meia-noite e terminou por volta das 5h desta quinta-feira. Os corpos, que segundo informações da polícia militar seriam de traficantes fugidos da Mangueira, estão no Hospital Salgado Filho, no Méier, Zona Norte. De acordo com a PM, eles começaram a dar entrada no hospital, trazidos pelo Bope, a partir das 4h20m.

Os policiais apreenderam na ação dois fuzis, cinco pistolas e duas granadas. Apesar do intenso confronto ocorrido durante toda a madrugada, não há policiamento no entorno da comunidade nesta manhã.

Também devido a informações de que traficantes da Mangueira estariam no Morro do Juramento, que fica em frente ao do Engenho da Rainha, a Polícia Militar ocupou a comunidade de Vicente de Carvalho, na manhã desta quinta-feira. Na noite de quarta, um homem ficou ferido durante um tiroteio entre PMs e traficantes na região. O músico Josimar Amanso Gomes, de 47 anos, foi baleado no peito por uma bala perdida, na Rua César Muzio, quando voltava para casa com a mulher e seu filho. A vítima foi levada para a Unidade de Pronto Atendimento de Irajá, e depois, transferida para o Hospital Getúlio Vargas, na Penha, onde foi operada.

Segundo o comandante do 41º Batalhão (Irajá), tenente-coronel Alexandre Fontenele, os policiais ocupam três pontos do Morro do Juramento, onde ficarão por tempo indeterminado. De acordo com ele, a presença da polícia vai evitar que traficantes se movimentem e usem o morro como base para invadir outras favelas.

O Morro da Mangueira, ocupado desde domingo para a implantação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), era dominado pela mesma facção criminosa que age no Juramento. A caçada a bandidos foragidos da Mangueira resultou na quarta-feira na morte de quatro supostos traficantes . Dois homens - que segundo a polícia teriam ligação com o tráfico - foram mortos em confrontos, no Morro do Viradouro, Zona Norte de Niterói. Outros dois morreram após ação policial no conjunto de favelas de Senador Camará e Bangu. Um traficante, que vestia farda similar às usadas pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope), foi preso por homens do 14º BPM (Bangu).

Na terça-feira, agentes da Secretaria Especial de Ordem Pública (Seop) derrubaram uma casamata do tráfico nas proximidades do Buraco Quente, na Mangueira. O muro de concreto tinha cerca de 1,5 metro de altura, dez centímetros de espessura e buracos para que os traficantes pudessem posicionar os fuzis e resistir à entrada dos policiais. Na ação de Choque de Ordem, dois caminhões foram rebocados.

Além da demolição da casamata do tráfico, foi encontrado, em um terreno baldio da comunidade, material para embalar drogas. A apreensão foi feita por policiais federais, após receberem denúncias anônimas.

FOI UM RIO QUE PASSOU EM MINHA VIDA

Foi um Rio que passou em minha vida - Jô Rodrigues, O GLOBO, 30/11/2010 às 13h24m; Artigo do leitor.

A letra do belo e eterno samba, cantado pelo genial Paulinho da Viola (portelense como eu), é perfeitamente condizente com a filosofia que norteia os cariocas, num momento tão difícil de retomada da legalidade e da paz em algumas de suas favelas, antes dominadas por traficantes - de drogas e de armas - e marginais de toda espécie.

Aquele Rio do passado, romanticamente mostrado também em músicas de Noel Rosa, Martinho da Vila e outros gênios da MPB, se transformou - em alguns pontos - em meras lembranças, diante da onda avassaladora da criminalidade, que não admite obstáculos para atingir seus objetivos de dominar mentes e ganhar dinheiro.

Rocinha, Alemão, Mangueira e até a antes pacata Vila Cruzeiro, na Penha, Zona Norte do Rio, com o passar dos anos, se transformaram em pesadelos, quer para seus moradores, quer para as autoridades, que - talvez por comodismo ou por politicagem barata - insistiam em não ver o que estava ali, vivo, pulsante, diante dos seus narizes.

E assim foram crescendo monstros como Fernandinho Beira-Mar, Elias Maluco, Zeu, e aumentando - de modo descomunal - a vertente mais perigosa da criminalidade: o tráfico de drogas e de armas, que corrompeu mentes, corações, corpos, e alimentou uma indústria que, à época do Rio romântico (onde o único perigo era os bicheiros, com seus jogos de azar), era incipiente e não preocupava ninguém.

O "Rio que passou em minha vida", de fato, passou. Hoje, não é apenas um rio, mas um mar de crimes, seqüestros, contrabandos, tráfico de armas, lavagem de dinheiro, corrupção, banditismo, que não se infiltraram apenas nas favelas, nos bairros pobres periféricos - como a Vila Cruzeiro, a poucos quilômetros da bucólica Igrejinha da Penha - mas em todas as esferas da vida carioca, inclusive nos poderes Legislativo e Judiciário.

Com o incremento do tráfico, do banditismo, da opressão aos moradores - que tinham que cooperar, sob pena de serem trucidados - surgiram também os nefastos "vigilantes", ex-militares e afins, que detectaram um terreno fértil à sua frente. Afinal, com a desculpa de combaterem os marginais que infestavam as comunidades, também eles passaram a infernizar a vida dos moradores.

Eles, diante da inoperância estatal, criaram líderes e até os elegeram para as Câmaras Legislativa Estadual e dos Vereadores. Encastelados em seus mandatos e na onda de impunidade, tinham como objetivo barrar projetos saneadores e, se pudessem, fazer leis que beneficiassem o sistema. Alguns já foram engaiolados, perderam seus mandatos, mas outros permanecem firmes em seus postos, desafiando a lei e a ordem. Até quando?

Antes, era o Rio romântico, dos "barões" do jogo do bicho, alguns dos quais até hoje são os maiores destaques de suas escolas de Samba. Agora, é o Rio sem dono, onde surgiu o império dos traficantes e dos vigilantes. E a população, como é que fica?

Tal e qual o marisco, que sofre encurralado entre o mar e os rochedos, os moradores dos bairros e favelas atingidos pela onda marginal ficaram impotentes e foram usados como massa de manobra. Ou colaboravam ou morriam. E mais: tinham seus filhos e filhas recrutados pelos marginais. Os meninos foram "promovidos" a soldados do tráfico, e as meninas, a amantes dos traficantes. E surgiu a gravidez prematura, indesejável, que macula lares de pessoas simples e amantes da paz.

Rapazes e moças corrompidos, pais impotentes, autoridades que não se atreviam a enfrentar os marginais, aumento do tráfico de drogas, de armas e de dinheiro, perda de autoridade - por parte dos governantes - e aumento de poder - por parte dos comandantes da marginalidade -, eis em que se transformou o antes romântico Rio de Janeiro.

Martinho e Gabriel Pensador cantam: "Sou carioca, sou do Rio de Janeiro... E o Carnaval? Tem Carnaval o ano inteiro; de março a fevereiro..." Mas a mesma música também diz: "É... Tem mendigos, traficantes, contrabandistas. Tem bandidos, polícias, ladrão; falta saneamento, falta segurança, para adultos e crianças. Esta cidade é um caos..."

Retrato, puro e simples, como a letra do samba, de um Rio que começou romântico, "passou em minha vida, e o coração se deixou levar", no Império e na República, foi ganhando habitantes, favelas e daí para a criminalidade foi só questão de tempo. Pouco tempo...

Hoje, lá no bairro Vila Cruzeiro, transformado em favela e criadouro de marginais e tráfico de drogas, e no Complexo do Alemão, foi feito um movimento de recuperação da imagem e do sonho carioca, de uma vida livre de preconceitos e de tabus, onde o samba e a alegria deveriam imperar.

Agora, depois da "limpeza" promovida pelas autoridades - que, enfim, acordaram - começa a surgir uma nova mentalidade, novo estado de espírito, embalados pelas bandeiras brasileira e do Rio de Janeiro, que tremulam bem lá no alto onde, antes, imperavam os marginais. E não distante dali, sobre o Corcovado, está o mais conhecido e venerado símbolo carioca, o Cristo Redentor. De braços abertos, o Senhor ali simbolizado, parece dizer: "Seja bem-vindo Rio Antigo. Eu o saúdo e o abençoo".

O RIO CONTRA O CRIME



O RIO CONTRA O CRIME - Carlos José Marques, diretor editorial - Revista Isto É, N° Edição: 2142, 26.Nov.10 - 21:00. Atualizado em 29.Nov.10 - 10:03

Foram décadas de resignação do Estado e de uma política promíscua cuja tônica era o relacionamento respeitoso – quase amigável – e de acordos espúrios entre autoridades e bandidos. Governantes acomodados, populistas e, em certos casos, pouco éticos fizeram vista grossa ao avanço dramático do tráfico e do crime organizado.

As facções armadas dos pés à cabeça, com fuzis e metralhadoras, tomaram conta da situação, mandando e desmandando pelas ruas e bairros do Rio de Janeiro, num quadro tão surrealista como inaceitável. Os grupos de marginais chegaram a impor toques de recolher a escolas e ao comércio local. Agiram sem resistência e sem receio. Formaram uma espécie de comando paralelo, turbinado pela glamorização das favelas e pelas táticas frouxas de combate do poder legalmente constituído. A sociedade virou refém. À mercê da barbárie. Vivendo numa praça de guerra diária como se fosse a coisa mais natural do mundo. Com a segurança por um fio, quase artigo raro, a vida passou a não valer mais nada na Cidade Maravilhosa. A inapetência e inoperância de quem deveria prover a ordem estiveram por trás do problema.

De uns tempos para cá, o cenário mudou. O modelo das Unidades de Polícia Pacificadora (as UPPs) deu resultados visíveis e extraordinários, com apoio irrestrito da população. O resgate da cidadania entrou em curso. Moradores de comunidades, antes praticamente alijados do aparato social de educação e saúde, passaram a receber serviços básicos essenciais. O banimento da violência nos morros propiciou a liberdade do ir e vir desses cidadãos. Era evidente que a transição não ocorreria sem traumas. Como numa panela de pressão, mais cedo ou mais tarde a reação desesperada de quadrilhas acuadas ocorreria. E ela veio numa onda terrorista e de vandalismo, com arrastões, assaltos e incêndio de veículos, que visavam fundamentalmente espalhar o medo e intimidar as autoridades.

O império do tráfico, que por anos entendeu que estava tudo dominado, quis tomar de volta o que perdeu. Mas a resposta da sociedade – por mais dolorosa e arriscada que possa parecer nesse momento – deve ser a da resistência. Com o apoio e a ajuda de todo o País, até o desmantelamento completo dessas quadrilhas e o aniquilamento das práticas deletérias de comércio ilegal de drogas. Não pode haver trégua, hesitação ou recuo nessa luta.

A hora é agora! O controle territorial do Rio – que pretende sediar eventos globais como a Olimpíada e a Copa do Mundo – não pode seguir nas mãos de marginais como ocorreu no passado recente. A falsa ideia de que a via do entendimento com esses bandidos é uma alternativa possível não deve prevalecer. A polícia fluminense precisa seguir avançando, sem fraquejar, no encalço daqueles que se imaginavam imunes à lei, expulsando-os do convívio social até o triunfo final.

A imagem do Cristo com colete e munição na capa desta edição da ISTOÉ suscitou polêmica entre os editores, mas prevaleceu a ideia de que, neste caso, mais do que o ícone religioso, a estátua do Redentor representa o símbolo maior de uma cidade que está pronta a responder, sem indulgência, às ameaças criminosas. O que se propõe não é uma imagem de guerra, mas da resistência e busca de paz.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Parabenizo aos editores e repórteres da Revista Isto É pela excelência da matéria publicada. Só que vive esta guerra a mais de 20 anos pode compreender a magnitude desta grande e inédita forma de combater o tráfico. Nós que acompanhamos neste período este cenário, analisamos, acompanhamos as denúncias do terror pela mídia, escrevemos sobre ele e propunhamos uma ação semelhante a que foi feita (e que faltava vontade política do Estado em executá-la), estamos jubilosos com esta ação e reação da população. Grande reportagem. Vale a pena comprar a revista para lembrar o dia em que o Brasil levantou-se contra o tráfico. Falta agora os senadores e deputados federais (que preferiram viajar para as bases) fazerem a sua parte, já que neste caso foram omissos.

TRAUMA E PREJUÍZO ÀS VÍTIMAS DOS ATAQUES

Trauma e prejuízo das vítimas dos ataques. Pessoas que tiveram veículos destruídos em atentados não conseguem superar o medo - POR FRANCISCO EDSON ALVES, O Dia, 28/11/2010

Rio - O pesadelo da guerra que toma conta do Rio há uma semana faz cada vez mais vítimas diretas dos ataques criminosos. Apesar do patrulhamento reforçado, na madrugada de ontem mais quatro automóveis foram queimados em Nova Iguaçu. Desde o início dos conflitos, pelo menos 100 carros de passeio, ônibus, motos, vans e caminhões já foram incendiados e, até sexta-feira, eram cerca de 50 mortos na capital, Região Metropolitana, Baixada Fluminense e em cidades do interior. Humilhados pelas ações do tráfico, cidadãos de bem choram seus mortos e calculam prejuízos. Abalados e dominados pelo medo, não conseguem retomar a rotina.

A corretora de seguros Daniele Toledo, 36 anos, não dorme em paz e não sai mais de casa. No dia 22, na Tijuca, Zona Norte, por volta das 23h, ela viu seu Renault Clio, que usava para trabalhar, ser consumido pelas chamas na porta de casa, enquanto os dois motoqueiros que atearam fogo no veículo acompanhavam da esquina, de forma debochada, seu desespero. “Agora, acordo agitada e chorando a todo momento”, conta Daniele, que precisou se afastar do trabalho. Aterrorizada, a filha dela, K., 17, decidiu deixar o Rio. “Ela vai morar na casa de parentes, no interior”, lamenta.

O fabricante de velas José Augusto Rocha Costelha, 53 anos, é outro que sentiu sua dignidade ser reduzida a cinzas. O Fiat Uno 95, que usava para entregar as velas que fabrica, foi incinerado com outros dois veículos por cinco homens armados no Trevo das Margaridas, em Irajá, na manhã de segunda-feira. “Quem vai pagar meu prejuízo?”, revolta-se ele.

Naquele dia, no mesmo local e horário, o mecânico Wagner Villas Boas, 45 anos, que também viu seu Monza ser incendiado, quase morreu ao ser confundido com um PM. “A imagem do fuzil apontado para minha cabeça e os gritos de ‘atira, atira que ele é PM’ me tiram a paz a todo instante”, relembra.

A família de Rosângela Alves, 14 anos, morta com um tiro no peito na quarta-feira, durante confronto na Penha, não se conforma. Ela estava dentro de casa, quando foi atingida por bala perdida. Na quinta-feira, parentes e amigos mal conseguiram velar o corpo, enterrado sob forte tiroteio.

Para a socióloga Edna Del Pomo de Araújo, coordenadora do Departamento de Sociologia da UFF, o medo e a insegurança desencadeiam a sensação de pânico coletivo. “Havia a ilusão de que a simples instalação das UPPs resolveria os problemas de tráfico e violência no Rio”, explica.

Menino é baleado por se recusar a incendiar moto

Por ter se recusado a atear fogo em uma motocicleta, o menor M., de 10 anos, foi baleado por um traficante conhecido como André Luiz, no fim da noite de sexta-feira, no bairro do Jacaré. Na madrugada de ontem, quatro carros estacionados foram incendiados no bairro Botafogo, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.

Ontem à tarde, a polícia informou que o chefe do tráfico do Cantagalo, Paulo Cezar Figueiredo Cabral, 39 anos, conhecido como Bolão, que está preso em Bangu 3, seria um dos mandantes do incêndio em um carro na noite de sexta-feira, em Ipanema. Bolão teria dado as ordens ao gerente do tráfico do Cantagalo, Washington Marcelo da Cruz, o Marcelinho, 19, e seu comparsa, Bruno Francisco da Silva, o Carcaça, 21, que obrigaram menores a cometerem os ataques na Zona Sul do Rio.

MADRUGADA DE VIOLÊNCIA


Rio tem nova madrugada de violência e ataques a veículos - O DIA, 25/11/2010

Rio - O Rio de Janeiro passou por mais uma madrugada de violência. Nesta quinta-feira, quatro ataques foram realizados em diferentes pontos do estado e uma pessoa ficou ferida. A Polícia Militar informou que os incidentes foram registrados em Mesquita, na Baixada Fluminense, em Laranjeiras, na Zona Sul, Penha, Zona Norte, e Barra da Tijuca, Zona Oeste. Os ataques fizeram com que várias ruas da cidade ficassem vazias e o comércio ficou fechado - a segurança foi reforçada pela PM. Desde a última terça-feira, 13 ônibus, duas vans, um caminhão e 30 veículos foram incendiados.

Pela manhã, dois ônibus foram queimados na Zona Norte - um em Rocha Miranda e outro em Irajá. No segundo caso, um morador precisou da ajuda de um vizinho para evitar que seu carro de passeio fosse queimado pelo rastro deixado pelo fogo. O terceiro coletivo destruído foi localizado em São Gonçalo, na Região Metropolitana. Pela madrugada, o caso mais grave foi registrado na Avenida Brasil, pista sentido Zona Oeste, altura da Penha. Um motorista foi baleado por bandidos que roubaram e incendiaram o ônibus que ele dirigia - o homem foi rendido na altura da Cidade Alta e levado para a Penha. PMs resgataram o motorista baleado e o socorreram. Seu estado de saúde é desconhecido.

Por volta de 2h, um carro foi incendiado na Avenida Ayrton Senna, na Barra da Tijuca. De acordo com informações do Corpo de Bombeiros, mesmo com o incêndio, não houve maiores transtornos e ninguém ficou ferido. Quatro homens, que estavam com isqueiros e garrafas pet, foram detidos na Cidade de Deus, em Jacarepaguá. Em Laranjeiras, na Zona Sul, bandidos atearam fogo em um carro na Rua Jornalista Orlando Dantas. Não houve registros de feridos e a segurança foi reforçada na região. Um suspeito foi detido com uma garrafa pet e gasolina - ele foi levado para a 5ª DP (Gomes Freire). Também na Zona Sul, desta vez em Botafogo, dois homens foram presos sob a suspeita de atear fogo em um veículo de passeio.

PM evita que ônibus seja incendiado

Policiais militares, que estavam em patrulhamento na Avenida Brasil, conseguiram impedir que um ônibus fosse queimado durante a madrugada em Bonsucesso, na Zona Norte. Os suspeitos foram avistados pelos PMs quando se preparavam para atear fogo no coletivo. Houve troca de tiros, mas ninguém ficou ferido. No início da noite de quarta-feira, PMs prenderam um homem com uma garrafa de gasolina na Rua Haddock Lobo, na Tijuca, Zona Norte. O homem foi levado para a 19ª DP (Tijuca), onde confessou que usaria o combustível para queimar veículos a pedido de traficantes do Complexo do Alemão. Um outro veículo foi destruído em Vila Isabel.

Ônibus é queimado em São Gonçalo

Mais um ônibus foi queimado, desta vez na Região Metropolitana. Na manhã desta quinta-feira, criminosos colocaram fogo em um ônibus na Estrada de Santa Isabel, em São Gonçalo. Não há notícias sobre vítimas.

Criminosos queimam ônibus em Rocha Miranda

Mais um ônibus foi incendiado nesta quinta-feira. Desta vez, criminosos atearam fogo em um coletivo na Rua Guiraréia, em Rocha Miranda, na Zona Norte. Bombeiros foram para o local.

Veículo incendiado em Irajá

Mais um veículo foi incendiado na manhã desta quinta-feira. Desta vez, o alvo dos bandidos foi um microônibus queimado próximo da estação do Metrô de Irajá. A Polícia Militar não informou se há vítimas e se o incêndio é criminoso.

PMs encontram bananas de dinamite em Madureira

Policiais militares apreenderam seis bananas de dinamite, no fim da madrugada desta quinta-feira, dentro de uma lixeira na Rua Sanatório, em Madureira, na Zona Norte. O artefato estava enrolados em fios e com um relógio. De acordo com a PM, o explosivo foi encontrado por garis da Comlurb que trabalhavam na remoção do lixo no local. O Esquadrão Anti-Bombas foi chamado e recolheu a dinamite.