O Rio de Janeiro é o espelho do Brasil. O que ocorre no Rio de Janeiro fatalmente se transmitirá em cadeia para os outros Estados da Federação. As questões de justiça criminal e ordem pública não fogem desta regra. Portanto, é estratégico manter a atenção, estudar o cenário, analisar as experiências e observar as políticas lá realizadas, ajudando no alcance dos objetivos. A solução desta guerra envolve leis duras e um Sistema de Justiça Criminal integrado, ágil, coativo e comprometido em garantir o direito da população à segurança pública.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

CONFRONTO, DROGAS E ARMAS APREENDIDAS

O Dia 22/06/2015 10:59:47

PM faz operação em comunidades da Praça Seca e tiros assustam moradores.  Houve confronto e seis fuzis, granadas, carregadores e drogas foram apreendidos. Ação deixa quase 600 alunos sem aulas

Rio - Policiais do Comando de Operações Especiais da PM (COE) realizam, desde a madrugada desta segunda-feira, uma operação nas favelas São José Operário e Covanca, na Praça Seca, na Zona Oeste da cidade. Moradores relataram o medo na região por conta da intensa troca de tiros.

A ação visa combater o tráfico e a milícia que disputam os territórios e seis fuzis foram apreendidos, quatro granadas, carregadores com munições, além de uma grande quantidade de drogas ainda não contabilizada. Os policiais também encontraram barracas montadas na mata na região da Covanca, onde os traficantes se refugiam quando há operações.

Bope, usando farda camuflada, apreende fuzis, carregadores, granadas e drogas em favelas da Praça Seca Foto: Divulgação

Segundo o Batalhão de Operações Especiais (Bope), o setor de inteligência recebeu informações sobre a presença de traficantes no baile da Covanca. Com isso, os policiais só deram início a operação com o fim da festa para evitar confronto dentro do baile.

De acordo com o Bope, ainda assim, houve confronto com criminosos na chegada às comunidades pela mata. Os homens do batalhão atuam pela primeira vez com roupas camufladas, que ajudam no combate na parte da vegetação. Também participam da operação os batalhões de Choque (BPChq), de Ações com Cães (BAC) e o Grupamento Aéreo Móvel (GAM).

A operação continua em andamento e os policiais fazem varredura na região. Ainda não há informações sobre feridos ou presos. As armas e as drogas apreendidas foram levadas para a 28ª DP (Campinho).


Acampamento usado por traficantes encontrado em mata na região da Covanca, na Praça Seca Foto: Divulgação

Quase 600 alunos ficam sem aulas



Por conta da operação nas duas favelas da Praça Seca, alunos da rede municipal estão sem aulas na região. De acordo com a Secretaria Municipal de Educação, através da 7ª Coordenadoria Regional, uma escola e um Espaço de Desenvolvimento Infantil não estão funcionando.

No total, 599 alunos ficarão sem aulas. A SME também informou que todo o conteúdo perdido será reposto posteriormente.

domingo, 21 de junho de 2015

NUMERO DOIS DA PM DO RIO ADMITE ERROS NAS UPPS

JORNAL EXTRA  21/06/15 07:56


Número dois da PM do Rio admite erros nas UPPs, elogia desmilitarização e critica política de guerra às drogas: ‘Fracasso’


Para coronel, “o que consome as energias da PM” é a guerra às drogas Foto: Marcio Oliveira/Extra


Rafael Soares


Durante a semana, Robson Rodrigues tem uma vida dupla. O coronel passa manhãs e tardes em seu gabinete no Quartel General da PM. Ao entardecer, ele tira a farda e vira aluno: formado em Direito e mestre em Antropologia, Robson, aos 51 anos — 31 deles na PM — é doutorando em Ciência Sociais pela Uerj. Até na faculdade, entretanto, o oficial não esquece a polícia, seu principal objeto de estudo. Em janeiro, Robson deixou os planos de aposentadoria de lado e aceitou o convite para o cargo de chefe do Estado Maior da PM, com o objetivo de transformar suas reflexões sobre a atividade policial em mudanças práticas. Numa sala da Secretaria de Segurança a poucos metros do gabinete do secretário José Mariano Beltrame, o oficial — fardado — revelou ao EXTRA que pretende aumentar o período de formação dos praças, admitiu erros na expansão das UPPs e criticou a política de guerra às drogas e o conservadorismo dentro e fora da corporação.

Por que o senhor largou a aposentadoria e voltou à PM?

A corporação passava por uma crise moral, de credibilidade, os números não estavam bons. Nosso projeto é o de modernização. Modernizar controle, processos e estrutura é prioridade, para que a PM entregue um serviço melhor.

No ano passado, integrantes da cúpula da PM foram presos em casos de corrupção. Esse é um problema institucional?

A corrupção existe em qualquer lugar. A PM está mais visível, como braço da força do estado. Só que o nível onde ela chegou, isso nunca tinha acontecido. Chegou aos altos escalões. Esse combate virou responsabilidade cívica. Por isso, muita gente foi afastada.

Você é a favor da desmilitarização da PM?

Eu sou a favor do serviço policial de natureza civil numa sociedade democrática, só que sou pragmático. Sou a favor da modernização antes da desmilitarização. Na identidade militar, temos bons princípios, como controle, organização e planejamento. Precisamos recuperar isso. Mesmo dentro do militarismo, que eu não acho que seja o melhor modelo, perdemos a essência.

A PM é o maior alvo de críticas quando o assunto é segurança pública. A que você acha que isso se deve?

A uma herança maldita da ditadura que a PM carrega até hoje. A ditadura construiu um desenho institucional bem planejado para um controle totalitário. Nesse cenário, a PM era a extensão da ditadura nas ruas. Passamos a um período democrático e o mesmo arcabouço permaneceu inalterado. Temos que prestar contas e defender os direitos da cidadania, mas temos o mesmo leque de atribuições. A PM faz desde a briga por furto de passarinho até a criminalidade transnacional na favela.

Robson, que já foi comandante das UPPs, admite erros: 'Se tivéssemos feito investimentos em qualidade, talvez não tivéssemos avançado tão rápido' Foto: Eduardo Naddar / Agência O Globo

Você acha que a PM gasta tempo e recursos demais com a guerra às drogas?


A política de combate às drogas, que gerou o proibicionismo, fracassou. O pretexto da guerra era o de que ela iria acabar com o tráfico, diminuir o consumo e a violência. Aconteceu ao contrário. Hoje, muitos estados americanos legalizaram o consumo. Nós continuamos aí. O que consome nossas energias é isso. Se acabasse, talvez sobrasse mais tempo para que combatêssemos o grande traficante de armas e de drogas, os grupos de extermínio... A PM foi convidada para uma dança, e ficou dançando sozinha com uma venda nos olhos. Quem convidou para dançar já saiu há muito tempo.

Como você avalia a formação policial hoje?

Essa é uma área que vai passar por mudanças. Vamos diminuir tempo para formação de oficiais e aumentar o tempo para formação de praças. O fluxo de carreira será meritocrático, os melhores vão ascender. O praça vai ter oportunidade de ter uma formação continuada, chegar a oficial. Mas não acho que haja problemas no currículo. Existe toda uma cultura que não nasce na polícia, mas na sociedade. O policial está em inserido em nossa sociedade elitista, conservadora, o que gera impactos na corporação.

As UPPs falharam?

As UPPs são um ótimo produto, mas precisam ser aprimoradas. Houve equívocos? Houve. Se criou uma expectativa muito grande de que a polícia iria resolver tudo. Se tivéssemos feito investimentos em qualidade, talvez não tivéssemos avançado tão rápido.

Dá para consertar os erros?


A UPP estava isolada dentro da corporação. Percebemos isso e remodelamos. Criamos dois núcleos: um de ocupação segura, com homens do Bope, e outro de proximidade. Por isso dividimos as comunidades por graus de risco. Quando percebemos um nível crítico, entra o núcleo de ocupação segura. Mas não podemos esquecer da pacificação e nos lançarmos para a guerra, como já aconteceu.

Como a PM se posiciona sobre a maioridade penal?

Nossos jovens estão sendo dizimados, tanto policiais quanto moradores de favelas. É uma covardia achar que a polícia vai resolver o problema. Se vai continuar como está ou não, não importa. O que importa é que nós vejamos o que produz isso. A maior parte dos menores encaminhados para delegacias são vítimas, e não autores.

Leia mais: http://extra.globo.com/casos-de-policia/numero-dois-da-pm-do-rio-admite-erros-nas-upps-elogia-desmilitarizacao-critica-politica-de-guerra-as-drogas-fracasso-16508810.html#ixzz3dhWqyUqt

terça-feira, 7 de abril de 2015

MEDO DOMINA VIELAS DO ALEMÃO




ZERO HORA 07 de abril de 2015 | N° 18125


GUILHERME MAZUI | Rio de Janeiro


GUERRA AO TRÁFICO. PREOCUPAÇÃO NO RIO


COMPLEXO DE FAVELAS vive clima de tensão após polícia intensificar ação de retomada do morro. Moradores relatam rotina de duelo entre forças de pacificação, milícias e grupo Comando Vermelho


Na casa onde Eduardo de Jesus Ferreira levou o tiro que lhe ceifou a vida, um lençol branco pede a paz que os moradores do complexo de favelas do Alemão desconhecem. O menino de 10 anos foi uma das quatro vítimas da última semana no conjunto de comunidades da zona norte do Rio de Janeiro, que há três meses convive com tiroteios diários entre policiais e traficantes. Eduardo foi enterrado ontem, no Piauí (leia ao lado).

– Dois dias sem tiro é um milagre. A morte do Eduardo deu uma trégua – suspira Renata Trajano, 35 anos, do coletivo Papo Reto.

Quase cinco anos depois da ocupação, em novembro de 2010, o medo de ter o caminho interrompido por tiros de fuzil é constante, apesar das quatro unidades de polícia pacificadora (UPP) e dos 1.230 policiais na região. A PM entrou, projetos sociais não avançaram e o Comando Vermelho se fortaleceu para reconquistar o espaço perdido. No meio de confronto ficam os moradores.

Na tarde anterior ao dia da morte do menino Eduardo, também houve tiroteio. Preocupada, Elisabete de Moura correu para fechar a porta de casa. Ao virar as costas, levou o disparo fatal que ainda alvejou sua filha, que sobreviveu.

– Minha mãe morreu com tiro nas costas dentro de casa. Eu vi o policial que a matou. No dia seguinte, ele estava trabalhando normal – diz o universitário Maycom Brum, 27 anos.

A carnificina gerou protestos contra atuação da PM, e o governador Luiz Fernando Pezão anunciou a reocupação. Desde a quinta-feira, 300 homens do Batalhão de Polícia de Choque (BPChoque) e do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) tomaram degrau a degrau, laje a laje, a área.

COMISSÃO DA CÂMARA FARÁ AUDIÊNCIA PÚBLICA

Ontem, as patrulhas eram intensas. Moradores andavam nas ruas observados por policiais armados. Um grupo do Choque guarnecia uma creche. Em frente a uma quadra de esportes, barricadas aguardavam eventuais confrontos.

– Tem gente na outra laje com fuzil nos monitorando. A gente pede para que as famílias não circulem com as crianças e que os senhores desçam – orientou um sargento a moradores e ao deputado Paulo Pimenta (PT-RS).

Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Pimenta esteve no Alemão. Ouviu queixas dos moradores e aguarda relatos sobre as condições precárias de trabalho dos PMs, que também acabam vítimas da violência generalizada. A comissão fará uma audiência pública, ainda sem data marcada, no complexo.

Porta-voz da Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP), o major Marcelo Corbage define a reocupação como “realinhamento estratégico”, sem a presença das Forças Armadas. Segundo ele, a presença de UPPs em outras favelas força o contragolpe do tráfico.

Haverá mudança na distribuição e nas rotinas das patrulhas. O efetivo terá cursos de recapacitação, ministrados por Bope e Choque com 64 horas de duração.

– Uma das partes do curso terá técnicas de abordagem. O policial deve se portar de forma segura para a comunidade. Esperamos que a morte do Eduardo seja a última – disse Corbage.



Enterrado no Piauí menino morto na quinta

Foi enterrado ontem na cidade de Corrente (PI), a 864 quilômetros de Teresina, o menino Eduardo de Jesus Ferreira, 10 anos, morto após ser baleado no complexo do Alemão na última quinta-feira.

As despesas com estadia da família do garoto, que já havia chegado ao Piauí na noite do domingo, e translado do corpo estão sendo custeados pelo governo estadual do Rio. A coordenadoria das UPPs afirma que Eduardo foi atingido por bala perdida durante confronto entre policiais e criminosos.

A mãe do menino, Terezinha Maria de Jesus, afirma que o filho foi morto por um policial quando brincava na porta de casa. O agente teria ainda a ameaçado de morte. Ontem, Terezinha disse que vai retornar ao Rio para acompanhar a investigação, mas, depois, quer voltar a morar no Piauí.

No Ciep Maestro Francisco Mignone, escola onde Eduardo cursava o 5º ano do Ensino Fundamental, pais, alunos e professores fizeram um minuto de silêncio ontem. Todos os funcionários da escola trabalharam vestidos de preto.



Operação deve durar décadas, diz governador


O governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB), afirmou ontem que o processo de pacificação no Complexo do Alemão deve durar décadas.

– É um processo que a gente tem sempre que reavaliar. Foram 20, 30 anos de abandono dentro dessas áreas. O próprio Alemão era a central do crime organizado. Não vão ser oito, 10, 15 anos que vão levar à paz – disse Pezão, em entrevista à Rádio Globo.

Além das queixas de truculência e despreparo dos PMs, o Programa de Polícia Pacificadora enfrenta dificuldades com a falta de estrutura nas bases das UPPs. O Ministério Público (MP) do Rio recebeu mais de mil denúncias registradas por policiais militares nos últimos dois anos e, em algumas UPPs, constatou falta de coletes à prova de balas, armamentos e até mesmo de água potável. A informação foi revelada em reportagem do programa Fantástico, da TV Globo.

Segundo Pezão, o programa das UPPs deve receber investimento de cerca de R$ 30 milhões para corrigir problemas emergenciais.





domingo, 29 de março de 2015

TRÁFICO RESISTE OCUPAÇÃO MILITAR NA MARÉ



O DIA 28/03/2015 23:46:21


Tráfico resiste após um ano de ocupação militar na Maré. A dois meses da substituição das Forças Armadas pela PM , comunidade faz avaliação


Francisco Edson Alves




Rio - No dia 5, a Força de Pacificação do Complexo da Maré completa um ano de ocupação. A data antecede os dois últimos meses em que tropas do Exército, Marinha e Aeronáutica ficarão por lá. Em junho, elas serão substituídas por mais de 1,4 mil policiais militares. A iminente saída dos militares — são três mil por dia — é esperada num clima misto de alívio, ansiedade e apreensão.

A presença dos soldados, segundo analistas, garantiu ações sociais jamais vistas na comunidade. Por outro lado, não conseguiu inibir a sangrenta disputa por bocas de fumo entre traficantes de duas facções criminosas: o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro.

No Complexo da Maré, o maior conglomerado de favelas do Rio, com 16 comunidades, moram mais de 130 mil pessoas. A maioria delas vive a expectativa da mudança. “Se os traficantes ignoraram os militares, com seus tanques e blindados de combate gigantes e armados com fuzis e pistolas (seriam mais de cinco mil armas), vão respeitar a PM?”, questiona o comerciante X., de 45 anos, que diz estar “cansado de presenciar” tiroteios entre quadrilhas, “mesmo com militares observando tudo a distância”.

“Vamos sentir falta. Ruas e escolas foram recuperadas, bandidos importantes foram presos e horários e altura do som dos bailes funk e de pagode, disciplinados”, pondera o motorista Y., 53.

Traumatizados e com medo de que os confrontos se intensifiquem, muitos moradores estão deixando o complexo. É o caso de Maria do Socorro Viana de Araújo, 40, que acusa soldados do Exército de terem executado seu filho, Felipe de Araújo Vieira, 23, com um tiro de pistola à queima-roupa no peito, no dia 20 de janeiro, na Vila dos Pinheiros.

Felipe é uma das 30 pessoas — incluindo um cabo do Exército — que morreram em 11 meses na Maré em confrontos ou em circunstâncias ainda não esclarecidas. Mais de cem ficaram feridas (51 militares).

Maria do Socorro garante que uma testemunha viu Felipe, que nunca teve envolvimento com o crime, sendo assassinado durante abordagem dos militares. “Ela prestou depoimento na Delegacia de Homicídios, mas ninguém foi preso. Os soldados, que não socorreram meu filho, passaram a me ameaçar na porta da minha casa. Estou indo embora daqui, onde nasci, para não morrer como meu filho”, justifica.

Embora, por questões estratégicas, o Comando Militar do Leste (CML) evite comentar o assunto, as tropas deixarão para a PM um mapeamento de acessos difíceis em todo o território, de dez quilômetros quadrados. Novos caminhos foram abertos e outros ficaram livres de barricadas do tráfico, feitas de barras de ferro, concreto e carcaças de carros.

A presença das Forças Armadas terá custado, no fim das contas, R$ 432 milhões ao governo federal, o equivalente a R$ 1,2 milhão por dia. Agora, o desafio será do governo estadual.


Críticos dizem que dinheiro foi mal usado

Educadores e representantes de entidades de Direitos Humanos, criticam a ocupação da Força de Pacificação. “Não mudou absolutamente nada. É impossível querer mudanças com atitudes de guerra. Os tiroteios na porta da minha escola continuam quase diariamente. Na semana passada, por exemplo, por três dias, os alunos tiveram que ficar abaixadas nas salas de aula com medo de balas perdidas”, argumenta Yvonne Bezerra, do Projeto Uerê, ONG que atende 470 crianças com traumas de violência na Baixa do Sapateiro.

“Os R$ 432 milhões poderiam ter sido investidos em escolas, creches, quadras de esportes e postos de saúde. Intervenções armadas só geram mais violência”, diz o advogado do Instituto de Defesa dos Direitos Humanos, João Tancredo.

Para Edson Diniz, diretor da ONG Redes da Maré, há até boa intenção e esforço dos militares para uma aproximação com a comunidade. “Mas as tropas, preparadas para proteger fronteiras, são vítimas também do quadro atual. Estão como peixes fora d’água”.

CML destaca ‘boas ações’

O delegado da 21ª DP (Bonsucesso), Delmir Gouveia, elogia as tropas na Maré. “Prenderam 570 suspeitos de crimes, entre eles, líderes importantes do tráfico, como Fabiano de Jesus, o Zangado, do TCP, irmão de Marcelo das Dores, o Menor P. Com a ajuda dos militares, também prendemos outros, como Eduardo da Silva, o Avião, maior fornecedor de cocaína do Comando Vermelho, e identificamos dezenas de bandidos”, comenta.

Em nota, o Exército lamentou a morte do cabo Michel Mikami, de 21 anos, por traficantes, em novembro, e diz ter instaurado 17 inquéritos para apurar supostas condutas irregulares e abusos de soldados.

“Além de coibir a violência, o trabalho dos militares e dos órgãos envolvidos visa também criar condições para a entrada do poder público”, diz o texto, citando algumas ações realizadas, entre elas a Justiça Itinerante, a recuperação de instalações escolares, a pintura da Vila Olímpica da Maré e a liberação de vias para a mobilidade urbana, além de encontros periódicos com líderes comunitárias e ONGs.

Tiros e perna amputada

O estoquista Vitor Santiago Borges, 29, é outro que vai embora da Maré. No dia 12 de fevereiro, o carro em que estava, com quatro amigos, foi fuzilado por soldados do Exército na Favela Salsa e Merengue. O motorista não ouviu a ordem de parar numa blitz.

Baleado com tiros de fuzil 762 no tórax e na perna esquerda, Vitor, ainda hospitalizado, teve o membro amputado. Em vídeo no Facebook, ele garante que não voltará para a comunidade. “Está muito violenta”, justifica.

A vendedora M., 43, mudou-se do Parque União com o marido e três filhos ano passado. Paga agora R$ 1,9 mil de aluguel num bairro da Zona Norte. “Alugamos nosso imóvel na Maré, onde meu irmão (de 37 anos) já foi vítima de bala perdida no ombro, por R$ 800. Ele também foi embora. O complexo, por falta de investimentos sociais e da própria falta de educação de boa parte da população, é uma fábrica de bandidos”, opina.

quinta-feira, 26 de março de 2015

AGENTE SOCIAL TORTURADO CONSEGUE ESCAPAR DO MICROONDAS

O DIA 26/03/2015 13:05:27

Agente do Degase foi torturado por 16 horas em favela de Bangu. Homem que seria queimado no chamado 'microondas' conseguiu escapar. Sindicato defende porte de arma fora das unidades para a categoria

Christina Nascimento



Funcionário do Defase foi torturado no Morro do 48, em Bangu. Ele conseguiu fugir antes de ser executado Foto: Leitor O Dia

Rio - O agente do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase), sequestrado por criminosos quando voltava para a casa, em Bangu, foi torturado por 16 horas, até conseguir fugir. Durante esse tempo, ele ficou amarrado numa árvore, no alto do Morro do 48, no mesmo bairro, com os braços presos com fios e a cabeça enrolada em fita adesiva. Além de levar coronhadas, chutes e socos, a vítima ainda teve que se deitar para que os bandidos passassem três vezes por cima dele de moto. Pouco antes de conseguir se desamarrar, numa distração do grupo, ele já tinha recebido a ‘sentença’: seria queimado, no chamado microondas, no início da noite.

O drama de X., que é lotado no Educandário Santo Expedito (ESE), em Bangu, começou por volta da meia-noite de terça-feira. Ele tinha deixado o plantão na unidade, onde naquele dia havia ocorrido uma rebelião, quando foi abordado por dois jovens, com pistolas, que estavam em motocicletas. O agente foi cercado em frente a um posto de gasolina, a poucos metros de casa, e foi obrigado a seguir numa das garupas. Um dos menores disse para X. que o reconheceu como sendo funcionário do Degase e que, por isso, o levaria para dentro da comunidade. O adolescente era ex-interno e tinha cumprido medida socioeducativa no ESE.

Durante o período em que ficou amarrado, X. ouviu conversas dos criminosos, por telefone, com o chefe do tráfico do morro, que pertence a facção Comando Vermelho. Os bandidos queriam autorização para matá-lo. A permissão foi dada, e o grupo decidiu que ele seria morto, às 18 horas, queimado. O agente, que trabalha há apenas um ano no sistema Degase, também ficou sabendo pelos bandidos que eles acompanhavam a rotina de alguns funcionários.

X. conseguiu escapar por volta das 16 horas, quando policiais do 14º BPM (Bangu) se preparavam para entrar na comunidade para resgatar o agente. Preocupados com a presença dos militares, os criminosos o deixaram sozinho, o que facilitou sua fuga. Ele está internado para fazer exames, mas está decidido a não voltar mais casa. Para o presidente do Sind Degase, João Luiz Pereira Rodrigues, o caso, além de extremamente grave, mostra a fragilidade na segurança dos agentes. Ele defende o porte de arma fora das unidades.


Após tortura, agente do Degase está decidido a não voltar mais para casa Foto: Leitor O Dia

“Vivemos a rotina do medo. Esse agente nasceu de novo. A realidade não permite que nossos funcionários fiquem circulando sem ter como se defender. Se ele tivesse armado, pelo menos teria como reagir. Temos diversos colegas que estão sendo assassinados todos os anos no país. Em 2013, no Rio, perdemos três colegas. É preciso tomar uma atitude. Dentro da unidade, precisamos do EPI (Equipamento de Proteção Individual), para que não ocorra como na rebelião do Santo Expedito. Naquele dia, os agentes tiveram que correr para a rua porque os menores estavam com armas improvisadas”, alertou ele.


sábado, 28 de fevereiro de 2015

O MORRO AGORA TEM VEZ

REVISTA ISTO É N° Edição: 2361 | 27.Fev.15


Pacificação de favelas reduz índices de criminalidade, leva o poder público a recuperar o controle das comunidades pobres e transforma para melhor a vida de milhões de moradores


Eliane Lobato




Durante décadas, o Rio de Janeiro defrontou-se com o enfraquecimento progressivo das instituições públicas ao mesmo tempo que o reordenamento de forças criminosas constituía um poder paralelo, ávido por ocupar o espaço deixado pelas autoridades. Nesse processo, o carioca conheceu a submissão política e a corrupção de agentes da lei, que resultaram na transformação do Rio em uma das cidades mais perigosas do Brasil. Isso, porém, está ficando para trás. O divisor de águas aconteceu em 2008, um ano após o governador Sérgio Cabral (PMDB) assumir o Estado e criar, com o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, um corajoso projeto de retomada de controle das comunidades pobres. Em 19 de dezembro daquele ano foi instalada a primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), no Morro Santa Marta, em Botafogo, na zona sul. Até agora, são 38 unidades espalhadas pelas favelas cariocas. E Beltrame anuncia outra novidade: a UPP do asfalto, como são chamadas as CIPPs, sigla das Companhias Integradas de Polícia de Proximidade. A primeira foi cravada na terça-feira 24, na Tijuca. “Esse é o desfecho do programa de polícia pacificadora”, diz Beltrame. “UPPs nos morros e CIPPs embaixo, todos alinhados numa política só.”



A expectativa é de que até 2018 as CIPPs tenham se transformado em referência no País. “Vamos otimizar o efetivo para ter mais qualidade”, disse, em nota, o comandante-geral da PM, coronel Alberto Pinheiro Neto. Já o projeto das UPPs será encerrado com 44 ou 46 unidades, segundo Beltrame. Para resumir o benefício que a iniciativa levou às áreas pobres, basta dizer que o índice de homicídios dentro nas favelas com UPPs é de oito por 100 mil habitantes, abaixo até do que a ONU considera aceitável (dez homicídios por 100 mil). O secretário Beltrame diz que a consolidação desse trabalho só será possível com o que chama de UPP social, que consiste em um processo conjunto com escolas, creches e hospitais. Beltrame está exultante com a criação de uma Comissão Executiva de Monitoramento e Avaliação da Política de Pacificação (CEMAPP). A nova entidade tem a missão de planejar a ocupação social das favelas, em parceria com o governo federal, ONGs, entidades internacionais e o setor privado. “As UPPs não são só um projeto de segurança, mas uma política de Estado que traz esperança para a população”, diz o secretário.

Seria ingênuo dizer que as favelas pacificadas se tornaram paraísos imunes à ação dos criminosos. Dispostos a reaver territórios e a desmoralizar a polícia, de tempos em tempos traficantes entram em ação para disseminar a violência. Uma das táticas é dar tiros a esmo e tentar, assim, lembrar os moradores dos anos de medo e tirania. “Os criminosos querem que os moradores pensem que a UPP foi embora”, diz Beltrame. A estratégia, garante ele, não tem funcionado. “A principal facção criminosa do Rio está esfacelada, o Comando Vermelho não tem mais um comando e nas áreas ocupadas não há mais uma liderança”, diz o secretário. Trata-se, enfim, de um vitória de toda a cidade.


NAS ALTURAS
Teleférico no Complexo do Alemão, onde funcionam quatro UPPs (topo)
e o secretário Beltrame: símbolos da luta contra o tráfico

A maior ofensiva contra o tráfico de drogas foi no Complexo do Alemão, que reúne 15 favelas e recebeu quatro UPPs com a união de forças estaduais e federais, algo inédito no País. Antes da pacificação, o Alemão era estratégico para o tráfico. Ali funcionava o QG do Comando Vermelho, que controlava a circulação de moradores e impedia o acesso da polícia ao morro. Após as UPPs, o Alemão se tornou um lugar diferente. O símbolo dessa nova fase é o bondinho inaugurado em 2011. Além de atrair uma legião de turistas, ele serve como meio de transporte para os moradores. Agora todos podem desfrutar de um lugar que, depois de muitos anos, conseguiu deixar a rotina da violência para trás.

Fotos: Marcelo Regua/UOL; Fernando Frazão/Agência Brasil

sábado, 31 de janeiro de 2015

BALAS PERDIDAS?

REVISTA ISTO É N° Edição: 2357 | 30.Jan.15


Depois da bem-sucedida implantação das UPPs, a violência volta a assustar o Rio de Janeiro, com a volta do crime organizado nas áreas onde o Estado não está presente

Rogério Daflon




Não bastasse o aumento da criminalidade, e consequente insegurança, o primeiro mês do ano chega ao fim com uma estatística apavorante no Rio de Janeiro de uma vítima de bala perdida por dia. Até a sexta-feira 30, a região metropolitana contabilizou 31 pessoas atingidas – cinco delas morreram. O termo bala perdida foi criado pela imprensa carioca e adotado pela estatística oficial em 2007, a partir de um pedido do atual secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame. Não à toa. O ano de 2007 se mantém com o pior índice, com 279 pessoas baleadas e 21 mortas. Em 2009, após a implementação da política das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP), o número de mortos foi quase três vezes menor, à semelhança do que ocorreu com outros crimes. Mas o aumento das balas perdidas em 2015, somado ao volume maior de crimes violentos e ações policias desastradas, põe em xeque a própria UPP, um projeto de sucesso na fase de implantação, e expõe a crise por que passa a segurança pública no Estado. O segundo passo das UPPs, que seria ocupar os morros com o Estado – escolas, espaços culturais, postos de saúde –, não veio e a criminalidade está se reorganizando. “A situação é delicada, porque melhorar os procedimentos da polícia comunitária é muito difícil numa situação tensa”, diz a antropóloga Alba Zaluar, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos.


INSEGURANÇA
Acima, os pais do estudante Alex Schomaker, Andrei e Mausy
- morto num assalto aos 23 anos - durante sua formatura póstuma
na segunda-feira 26. Abaixo, cariocas se protegem de tiroteio



Para Alba, a grande quantidade de balas perdidas tem relação direta com o recrudescimento dos confrontos armados entre traficantes e policiais, em áreas com UPPs como a Favela da Rocinha, na zona sul, e o Complexo do Alemão, na zona norte, e em outras partes da metrópole sem ocupação. Em entrevista à IstoÉ, o secretário José Mariano Beltrame disse que, numa crise aguda como essa, a pressão toda recai sobre a polícia, mas há outras ações a serem feitas. Dois anos após a primeira e bem-sucedida UPP do Morro Santa Marta, na zona sul, a chamada UPP social, administrada pela Prefeitura do Rio, anunciou que faria um trabalho com os jovens, a fim de evitar que eles fossem novamente cooptados pelo tráfico de drogas. “Se você perguntar para a UPP Social e até para o governo federal, eles vão dizer que fizeram um trabalho nesse sentido, mas nada que tivesse surtido o efeito desejado”, diz Beltrame. Segundo o secretário, governo do Estado e prefeitura não tiveram celeridade para implementar serviços públicos nas áreas ocupadas. “Falta velocidade dos outros setores do poder público no Rio. Quando se leva segurança para essas áreas, é para se garantir o ir e vir também do caminhão do lixo, do médico da família, da assistente social”, diz o secretário.


"Falta velocidade dos outros setores do poder público no Rio"
José Mariano Beltrame, secretário de Segurança

Os pais do estudante Alex Schomaker, assassinado aos 23 anos com quatro tiros no dia 8 de janeiro, numa tentativa de assalto em Botafogo, na zona sul do Rio, consideram que o Estado está ausente. “O Estado matou meu filho. O lugar onde ele foi morto está sempre mal iluminado, sem poda de árvores, e isso tem sido reivindicado há muito tempo. A UPP criou uma falsa ilusão de segurança no Rio”, disse a mãe, Mausy Schomaker. O casal foi à formatura do filho na segunda-feira 26, que se formaria em ciências biológicas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Fizeram questão de sentar nas fileiras reservadas aos formandos, pegar o certificado de conclusão de curso de Alex e ler uma carta para ele. A cerimônia, no Instituto de Biologia, se transformou em uma homenagem ao jovem, com um painel de fotos dele ao fundo. Num dos momentos mais emocionantes, todos cantaram e disseram: “Eu sou Alex”. A cientista social Silvia Ramos, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes, diz que a indignação com a violência mostra que a indiferença da sociedade está diminuindo.

Na visão do cientista político João Trajano, do Laboratório de Análise de Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o problema é que, nas UPPs, a lógica da política se sobrepõe à dos profissionais de segurança pública. “Em 2015, teremos 40 UPPs no Rio. Elas têm sido feitas de maneira intempestiva”, diz Trajano, ressaltando a hipótese de as UPPs promoverem a migração de bandidos para outras áreas da capital e da região metropolitana.




Fotos: Alexandre Cassiano/Ag. O Globo; Vítor Silva/Futura Press