O Rio de Janeiro é o espelho do Brasil. O que ocorre no Rio de Janeiro fatalmente se transmitirá em cadeia para os outros Estados da Federação. As questões de justiça criminal e ordem pública não fogem desta regra. Portanto, é estratégico manter a atenção, estudar o cenário, analisar as experiências e observar as políticas lá realizadas, ajudando no alcance dos objetivos. A solução desta guerra envolve leis duras e um Sistema de Justiça Criminal integrado, ágil, coativo e comprometido em garantir o direito da população à segurança pública.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

PRISÕES E APREENSÃO DE POTENTES ARMAS E MUNIÇÕES DE GUERRA

DIÁRIO GAÚCHO 11/08/2015 | 18h16

Polícia do Rio prende traficantes rivais de Playboy. Durante a operação, foram apreendidas armas, como fuzis de longo alcance, além de munições



Foto: Disque Denúncia / Reprodução


O Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar (PM) do Rio de Janeiro prendeu nesta terça-feira seis dos traficantes mais procurados da cidade. Eles foram encontrados em um condomínio próximo ao Complexo do Chapadão, na zona norte da cidade, e não ofereceram resistência, segundo a PM. Durante a operação, foram apreendidas armas, como fuzis de longo alcance, com grande potencial de destruição, além de munições.

Entre os presos estão Ricardo Chaves de Castro Lima, o Fu da Mineira, e Cláudio José de Souza Fontarigo, o Claudinho da Mineira. Ambos tinham uma recompensa por sua captura avaliada em R$ 10 mil, segundo o Portal Procurados, do Disque Denúncia.

Fu era chefe do Comando Vermelho, facção criminosa que chefia o tráfico de drogas no Complexo do Chapadão, em Costa Barros, e no Morro da Mineira, no Catumbi, ambos na zona norte do Rio.

Os criminosos também eram rivais da facção de Celso Pinheiro Pimenta, o Playboy, morto no último sábado. A disputa das facções pelos pontos de venda de drogas na região de Costa Barros levou a inúmeros confrontos armados nos últimos meses. De acordo com o comandante do Bope, o tenente-coronel Carlos Sarmento, a ação que prendeu a "cúpula do crime" do Comando Vermelho foi feita para impedir que a organização rival ganhasse território com a morte de Playboy.

O secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, defendeu mudanças na legislação para dar maior responsabilidade penal a quem tiver porte de armas de uso restrito das Forças Armadas.

— Estou preparando uma [proposta de] alteração no Estatuto do Desarmamento. Não é possível que uma pessoa tenha um fuzil em casa e na hora de ser julgada não tenha um olhar diferenciado para o porte desse tipo de equipamento. Queremos dar um basta. Chega de termos aqui essa idolatria por armas de guerra. A lei precisa ser forte para que as pessoas entendam que quem tem uma arma de guerra, ou uma dinamite para estourar caixa eletrônico, esse porte não pode ser tratado de maneira normal, como hoje nos diz a lei.


As prisões de hoje fazem parte de uma série de operações feitas em conjunto pelas polícias militar, civil e federal em comunidades do Rio de Janeiro. Nessa segunda-feira quase 6 mil alunos ficaram sem aula por conta da ocupação no Complexo da Pedreira, em Costa Barros, que resultou na morte de Playboy.

A Secretaria Municipal de Educação informou que nesta terça-feira, em Costa Barros e entorno, de acordo com a 6ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), duas escolas e um Espaço de Desenvolvimento Infantil (EDI) estão sem atendimento nos dois turnos. Já no turno da tarde, estão sem atendimento dois EDIs, uma escola e uma creche. As unidades citadas atendem 1.617 alunos. A secretaria esclarece ainda que o conteúdo perdido será reposto.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

UM POLICIAL MORRE A CADA 40 DIAS EM UPPS DO RIO



Henrique Coelho Do G1 Rio 09/07/2015 06h45

Um policial morre a cada 40 dias em UPPs do Rio desde 2014. Em 2015, 53 policiais de UPP foram baleados e sete foram mortos.  Coordenadoria de Polícia Pacificadora reconhece aumento da violência.




Entre 1º de janeiro de 2014 e 8 de julho de 2015 – período em que se agravou a crise nas Unidades de Polícia Pacificadoras – 15 policiais lotados em nas UPPs morreram em serviço no Rio de Janeiro. A média é de um policial morto a cada 40 dias neste intervalo, incluindo o soldado Alex Amâncio, de 34 anos, que morreu quando patrulhava a região próxima à UPP Andaraí, na última segunda-feira (6).

O G1 inicia nesta quinta-feira (9) uma série de três reportagens para contar a história dos policiais que morreram dentro de comunidades que contam com a presença de UPPs no Rio.



Policiais reclamam da falta de condições de trabalho e a Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) reconhece o aumento da violência, mas defende o projeto, que enfrenta seu pior momento desde a implantação da primeira unidade, no morro Dona Marta, em dezembro de 2008.




Em 2014, o numero de policiais mortos em serviço em áreas de UPP chegou a oito, o maior desde o início do projeto. Em 2015, foram sete até a noite de terça-feira (7).

Em 2012 foram registradas as primeiras mortes de policiais em áreas de UPP: quatro. No ano seguinte, mais três, somando 22 policiais mortos desde o início do projeto.

O número de policiais feridos em operações, patrulhamentos ou ataques às sedes e pontos fixos das UPPs também assusta. Segundo fontes do G1, 87 policiais lotados em UPPs foram baleados em 2014. Em 2015, até de 8 de julho, 53 policiais que pertencem às UPPs foram feridos a bala. Desde 2014, portanto, a média é de 1 baleado a cada quatro dias. A PM e a Coordenadoria da Polícia Pacificadora não informam números oficiais de feridos.

Até a publicação desta reportagem, a Secretaria de Estado de Segurança e o secretário José Mariano Beltrame não responderam ao G1.

'Projeto falido', diz viúva de PM

Em 2015, foram dois policiais mortos na UPP Cidade de Deus (Zona Oeste), mais precisamente na localidade conhecida como Apartamentos, em um intervalo de apenas 20 dias. Um deles era Bruno Miguez, de 30 anos, que levou um tiro na cabeça durante patrulhamento no dia 29 de janeiro. Um PM que estava com ele foi baleado no ombro, mas Miguez não resistiu. No dia 18 de fevereiro, Rogério Pereira da Silva, de 39 anos, foi baleado ao sair da base da UPP Apartamentos e também morreu.

O soldado da UPP Cidade de Deus morreu após levar um tiro na cabeça durante patrulhamento

Michelle Miguez, viúva de Bruno, conta em entrevista exclusiva ao G1 sente como se ele ainda estivesse presente em sua vida, e lembrou que o soldado estava havia pouco tempo na unidade.

"A UPP é um projeto falido, feito para os policiais morrerem. Pedi para ele não ir para lá, pois ele estava no Turano e lá era tranquilo. A Cidade de Deus é muito mais complicada, e ninguém nunca o ensinou a se movimentar lá", diz ela, que se emocionou ao lembrar do enterro de Bruno. "Quando eu olhei para o caixão, naquele momento queria ter ido com ele. E acho que não vai demorar muito para reencontrá-lo. Nosso amor é além da vida", garante.

Alemão é ponto crítico


Das 15 mortes ocorridas entre janeiro de 2014 e de 2015, 53% delas foram em comunidades dos conjuntos de favelas do Alemão e da Penha, vizinhos na Zona Norte do Rio: O soldado Wagner Vieira Cruz e o tenente Leidson Acácio (Vila Cruzeiro); a soldado Alda Rafael Castilho (Parque Proletário); o soldado Rodrigo Paes Leme e o capitão Uanderson Manoel da Silva (Nova Brasília); e o soldado Fábio Gomes da Silva (Fazendinha), todos em 2014. Em 2015, morreram o cabo Anderson Fernandes (Fazendinha); e o soldado Marcelo Soares do Reino (Alemão).

Comandante da UPP Nova Brasília, capitão
Uanderson morreu em 2014
(Foto: Divulgação / Polícia Militar)

“Lá é o inferno. Tive que me esconder várias vezes para não morrer”, resumiu um ex-soldado da UPP Fazendinha, que não se identificou à reportagem do G1 por motivos de segurança. No ano passado, um PM expulso pela corporação após críticas ao na época comandante das UPPs, Frederico Caldas, já havia dito que "o Alemão era um castigo" para os soldados.

"Não temos treinamento contínuo de tiro e muitos de nós não somos preparados para atuar em área conflagrada. Essa é a verdade.", confessou outro soldado da UPP Alemão.

Em 2015, foram feridos policiais de 20 UPPs diferentes, com destaque para a UPP Alemão, com 10 feridos. De janeiro até 6 de julho, 25 policiais foram baleados apenas nos conjuntos de favelas do Alemão e da Penha, de um total de 53 feridos a bala.

'Precisamos de mais parceiros'

O coordenador operacional da CPP, Ivan Blaz, reconheceu que, desde meados de 2013, as UPPs vêm passando por eventos críticos que causaram o aumento da violência nas comunidades.

"Já temos cabines blindadas e anteparos balísticos simples na UPP São João, do Alemão, de Nova Brasília e da Fazendinha, e estamos montando na Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) para levar a outras comunidades. Nossa estratégia é a ocupação nas partes elevadas dos morros", afirma Blaz.

As novas medidas, no entanto, já encontraram um avanço, segundo ele: "Os ferimentos em 2014 foram mais graves do que os que estão acontecendo em 2015 [tiros de raspão, por exemplo]. Isso mostra uma melhora no preparo dos policiais", analisa.

Blaz fez um apelo para que mais empresas privadas ajudem a UPP a criar projetos sociais e mantê-los dentro das comunidades.

Ameaças do tráfico

Em entrevista ao G1, um morador do morro Dona Marta, que recebeu a primeira UPP em dezembro de 2008, falou sobre a desistência de muitos moradores de participar de projetos sociais dentro da comunidade.

"Tudo por medo do tráfico, né? Das ameaças que a pessoa pode receber", avalia. Blaz ressalta que este é um dos principais desafios das UPPs neste sétimo ano de projeto, principalmente com o público entre 12 e 18 anos.

"Precisamos da participação popular, que o Alemão demonstrou este ano após 100 dias de conflito armado, e que a Maré já demonstra há muito tempo. Temos parcerias com a LBV [Legião da Boa Vontade] em Manguinhos e o Ação Social Pela Música em 19 comunidades, mas precisamos de mais como estes. Precisamos de mais pessoas e empresas que nos ajudem, porque vários dos projetos tocados hoje ocorrem graças aos próprios policiais das unidades", avaliou.

Imagem aérea do Conjunto de Favelas da Maré: desafio para UPPs (Foto: Ricardo Moraes/Reuters)

Na Maré, os problemas vividos entre a Força de Pacificação e os moradores, além dos tiroteios frequentes envolvendo traficantes, transformam a instalação de UPPs em um desafio.

"Vamos fazer encontros quinzenais com as associações de moradores da Maré para saber das demandas de segurança naquela área, além de simplesmente enfrentar criminosos armados e criar uma relação de confiança com as comunidades", garantiu Blaz.

A previsão é de que as quatro UPPs previstas para a região fiquem prontas até o primeiro trimestre de 2016. Veja abaixo vídeo do enterro do PM Alex Amâncio, nesta terça-feira (7).

segunda-feira, 22 de junho de 2015

CONFRONTO, DROGAS E ARMAS APREENDIDAS

O Dia 22/06/2015 10:59:47

PM faz operação em comunidades da Praça Seca e tiros assustam moradores.  Houve confronto e seis fuzis, granadas, carregadores e drogas foram apreendidos. Ação deixa quase 600 alunos sem aulas

Rio - Policiais do Comando de Operações Especiais da PM (COE) realizam, desde a madrugada desta segunda-feira, uma operação nas favelas São José Operário e Covanca, na Praça Seca, na Zona Oeste da cidade. Moradores relataram o medo na região por conta da intensa troca de tiros.

A ação visa combater o tráfico e a milícia que disputam os territórios e seis fuzis foram apreendidos, quatro granadas, carregadores com munições, além de uma grande quantidade de drogas ainda não contabilizada. Os policiais também encontraram barracas montadas na mata na região da Covanca, onde os traficantes se refugiam quando há operações.

Bope, usando farda camuflada, apreende fuzis, carregadores, granadas e drogas em favelas da Praça Seca Foto: Divulgação

Segundo o Batalhão de Operações Especiais (Bope), o setor de inteligência recebeu informações sobre a presença de traficantes no baile da Covanca. Com isso, os policiais só deram início a operação com o fim da festa para evitar confronto dentro do baile.

De acordo com o Bope, ainda assim, houve confronto com criminosos na chegada às comunidades pela mata. Os homens do batalhão atuam pela primeira vez com roupas camufladas, que ajudam no combate na parte da vegetação. Também participam da operação os batalhões de Choque (BPChq), de Ações com Cães (BAC) e o Grupamento Aéreo Móvel (GAM).

A operação continua em andamento e os policiais fazem varredura na região. Ainda não há informações sobre feridos ou presos. As armas e as drogas apreendidas foram levadas para a 28ª DP (Campinho).


Acampamento usado por traficantes encontrado em mata na região da Covanca, na Praça Seca Foto: Divulgação

Quase 600 alunos ficam sem aulas



Por conta da operação nas duas favelas da Praça Seca, alunos da rede municipal estão sem aulas na região. De acordo com a Secretaria Municipal de Educação, através da 7ª Coordenadoria Regional, uma escola e um Espaço de Desenvolvimento Infantil não estão funcionando.

No total, 599 alunos ficarão sem aulas. A SME também informou que todo o conteúdo perdido será reposto posteriormente.

domingo, 21 de junho de 2015

NUMERO DOIS DA PM DO RIO ADMITE ERROS NAS UPPS

JORNAL EXTRA  21/06/15 07:56


Número dois da PM do Rio admite erros nas UPPs, elogia desmilitarização e critica política de guerra às drogas: ‘Fracasso’


Para coronel, “o que consome as energias da PM” é a guerra às drogas Foto: Marcio Oliveira/Extra


Rafael Soares


Durante a semana, Robson Rodrigues tem uma vida dupla. O coronel passa manhãs e tardes em seu gabinete no Quartel General da PM. Ao entardecer, ele tira a farda e vira aluno: formado em Direito e mestre em Antropologia, Robson, aos 51 anos — 31 deles na PM — é doutorando em Ciência Sociais pela Uerj. Até na faculdade, entretanto, o oficial não esquece a polícia, seu principal objeto de estudo. Em janeiro, Robson deixou os planos de aposentadoria de lado e aceitou o convite para o cargo de chefe do Estado Maior da PM, com o objetivo de transformar suas reflexões sobre a atividade policial em mudanças práticas. Numa sala da Secretaria de Segurança a poucos metros do gabinete do secretário José Mariano Beltrame, o oficial — fardado — revelou ao EXTRA que pretende aumentar o período de formação dos praças, admitiu erros na expansão das UPPs e criticou a política de guerra às drogas e o conservadorismo dentro e fora da corporação.

Por que o senhor largou a aposentadoria e voltou à PM?

A corporação passava por uma crise moral, de credibilidade, os números não estavam bons. Nosso projeto é o de modernização. Modernizar controle, processos e estrutura é prioridade, para que a PM entregue um serviço melhor.

No ano passado, integrantes da cúpula da PM foram presos em casos de corrupção. Esse é um problema institucional?

A corrupção existe em qualquer lugar. A PM está mais visível, como braço da força do estado. Só que o nível onde ela chegou, isso nunca tinha acontecido. Chegou aos altos escalões. Esse combate virou responsabilidade cívica. Por isso, muita gente foi afastada.

Você é a favor da desmilitarização da PM?

Eu sou a favor do serviço policial de natureza civil numa sociedade democrática, só que sou pragmático. Sou a favor da modernização antes da desmilitarização. Na identidade militar, temos bons princípios, como controle, organização e planejamento. Precisamos recuperar isso. Mesmo dentro do militarismo, que eu não acho que seja o melhor modelo, perdemos a essência.

A PM é o maior alvo de críticas quando o assunto é segurança pública. A que você acha que isso se deve?

A uma herança maldita da ditadura que a PM carrega até hoje. A ditadura construiu um desenho institucional bem planejado para um controle totalitário. Nesse cenário, a PM era a extensão da ditadura nas ruas. Passamos a um período democrático e o mesmo arcabouço permaneceu inalterado. Temos que prestar contas e defender os direitos da cidadania, mas temos o mesmo leque de atribuições. A PM faz desde a briga por furto de passarinho até a criminalidade transnacional na favela.

Robson, que já foi comandante das UPPs, admite erros: 'Se tivéssemos feito investimentos em qualidade, talvez não tivéssemos avançado tão rápido' Foto: Eduardo Naddar / Agência O Globo

Você acha que a PM gasta tempo e recursos demais com a guerra às drogas?


A política de combate às drogas, que gerou o proibicionismo, fracassou. O pretexto da guerra era o de que ela iria acabar com o tráfico, diminuir o consumo e a violência. Aconteceu ao contrário. Hoje, muitos estados americanos legalizaram o consumo. Nós continuamos aí. O que consome nossas energias é isso. Se acabasse, talvez sobrasse mais tempo para que combatêssemos o grande traficante de armas e de drogas, os grupos de extermínio... A PM foi convidada para uma dança, e ficou dançando sozinha com uma venda nos olhos. Quem convidou para dançar já saiu há muito tempo.

Como você avalia a formação policial hoje?

Essa é uma área que vai passar por mudanças. Vamos diminuir tempo para formação de oficiais e aumentar o tempo para formação de praças. O fluxo de carreira será meritocrático, os melhores vão ascender. O praça vai ter oportunidade de ter uma formação continuada, chegar a oficial. Mas não acho que haja problemas no currículo. Existe toda uma cultura que não nasce na polícia, mas na sociedade. O policial está em inserido em nossa sociedade elitista, conservadora, o que gera impactos na corporação.

As UPPs falharam?

As UPPs são um ótimo produto, mas precisam ser aprimoradas. Houve equívocos? Houve. Se criou uma expectativa muito grande de que a polícia iria resolver tudo. Se tivéssemos feito investimentos em qualidade, talvez não tivéssemos avançado tão rápido.

Dá para consertar os erros?


A UPP estava isolada dentro da corporação. Percebemos isso e remodelamos. Criamos dois núcleos: um de ocupação segura, com homens do Bope, e outro de proximidade. Por isso dividimos as comunidades por graus de risco. Quando percebemos um nível crítico, entra o núcleo de ocupação segura. Mas não podemos esquecer da pacificação e nos lançarmos para a guerra, como já aconteceu.

Como a PM se posiciona sobre a maioridade penal?

Nossos jovens estão sendo dizimados, tanto policiais quanto moradores de favelas. É uma covardia achar que a polícia vai resolver o problema. Se vai continuar como está ou não, não importa. O que importa é que nós vejamos o que produz isso. A maior parte dos menores encaminhados para delegacias são vítimas, e não autores.

Leia mais: http://extra.globo.com/casos-de-policia/numero-dois-da-pm-do-rio-admite-erros-nas-upps-elogia-desmilitarizacao-critica-politica-de-guerra-as-drogas-fracasso-16508810.html#ixzz3dhWqyUqt

terça-feira, 7 de abril de 2015

MEDO DOMINA VIELAS DO ALEMÃO




ZERO HORA 07 de abril de 2015 | N° 18125


GUILHERME MAZUI | Rio de Janeiro


GUERRA AO TRÁFICO. PREOCUPAÇÃO NO RIO


COMPLEXO DE FAVELAS vive clima de tensão após polícia intensificar ação de retomada do morro. Moradores relatam rotina de duelo entre forças de pacificação, milícias e grupo Comando Vermelho


Na casa onde Eduardo de Jesus Ferreira levou o tiro que lhe ceifou a vida, um lençol branco pede a paz que os moradores do complexo de favelas do Alemão desconhecem. O menino de 10 anos foi uma das quatro vítimas da última semana no conjunto de comunidades da zona norte do Rio de Janeiro, que há três meses convive com tiroteios diários entre policiais e traficantes. Eduardo foi enterrado ontem, no Piauí (leia ao lado).

– Dois dias sem tiro é um milagre. A morte do Eduardo deu uma trégua – suspira Renata Trajano, 35 anos, do coletivo Papo Reto.

Quase cinco anos depois da ocupação, em novembro de 2010, o medo de ter o caminho interrompido por tiros de fuzil é constante, apesar das quatro unidades de polícia pacificadora (UPP) e dos 1.230 policiais na região. A PM entrou, projetos sociais não avançaram e o Comando Vermelho se fortaleceu para reconquistar o espaço perdido. No meio de confronto ficam os moradores.

Na tarde anterior ao dia da morte do menino Eduardo, também houve tiroteio. Preocupada, Elisabete de Moura correu para fechar a porta de casa. Ao virar as costas, levou o disparo fatal que ainda alvejou sua filha, que sobreviveu.

– Minha mãe morreu com tiro nas costas dentro de casa. Eu vi o policial que a matou. No dia seguinte, ele estava trabalhando normal – diz o universitário Maycom Brum, 27 anos.

A carnificina gerou protestos contra atuação da PM, e o governador Luiz Fernando Pezão anunciou a reocupação. Desde a quinta-feira, 300 homens do Batalhão de Polícia de Choque (BPChoque) e do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) tomaram degrau a degrau, laje a laje, a área.

COMISSÃO DA CÂMARA FARÁ AUDIÊNCIA PÚBLICA

Ontem, as patrulhas eram intensas. Moradores andavam nas ruas observados por policiais armados. Um grupo do Choque guarnecia uma creche. Em frente a uma quadra de esportes, barricadas aguardavam eventuais confrontos.

– Tem gente na outra laje com fuzil nos monitorando. A gente pede para que as famílias não circulem com as crianças e que os senhores desçam – orientou um sargento a moradores e ao deputado Paulo Pimenta (PT-RS).

Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Pimenta esteve no Alemão. Ouviu queixas dos moradores e aguarda relatos sobre as condições precárias de trabalho dos PMs, que também acabam vítimas da violência generalizada. A comissão fará uma audiência pública, ainda sem data marcada, no complexo.

Porta-voz da Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP), o major Marcelo Corbage define a reocupação como “realinhamento estratégico”, sem a presença das Forças Armadas. Segundo ele, a presença de UPPs em outras favelas força o contragolpe do tráfico.

Haverá mudança na distribuição e nas rotinas das patrulhas. O efetivo terá cursos de recapacitação, ministrados por Bope e Choque com 64 horas de duração.

– Uma das partes do curso terá técnicas de abordagem. O policial deve se portar de forma segura para a comunidade. Esperamos que a morte do Eduardo seja a última – disse Corbage.



Enterrado no Piauí menino morto na quinta

Foi enterrado ontem na cidade de Corrente (PI), a 864 quilômetros de Teresina, o menino Eduardo de Jesus Ferreira, 10 anos, morto após ser baleado no complexo do Alemão na última quinta-feira.

As despesas com estadia da família do garoto, que já havia chegado ao Piauí na noite do domingo, e translado do corpo estão sendo custeados pelo governo estadual do Rio. A coordenadoria das UPPs afirma que Eduardo foi atingido por bala perdida durante confronto entre policiais e criminosos.

A mãe do menino, Terezinha Maria de Jesus, afirma que o filho foi morto por um policial quando brincava na porta de casa. O agente teria ainda a ameaçado de morte. Ontem, Terezinha disse que vai retornar ao Rio para acompanhar a investigação, mas, depois, quer voltar a morar no Piauí.

No Ciep Maestro Francisco Mignone, escola onde Eduardo cursava o 5º ano do Ensino Fundamental, pais, alunos e professores fizeram um minuto de silêncio ontem. Todos os funcionários da escola trabalharam vestidos de preto.



Operação deve durar décadas, diz governador


O governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB), afirmou ontem que o processo de pacificação no Complexo do Alemão deve durar décadas.

– É um processo que a gente tem sempre que reavaliar. Foram 20, 30 anos de abandono dentro dessas áreas. O próprio Alemão era a central do crime organizado. Não vão ser oito, 10, 15 anos que vão levar à paz – disse Pezão, em entrevista à Rádio Globo.

Além das queixas de truculência e despreparo dos PMs, o Programa de Polícia Pacificadora enfrenta dificuldades com a falta de estrutura nas bases das UPPs. O Ministério Público (MP) do Rio recebeu mais de mil denúncias registradas por policiais militares nos últimos dois anos e, em algumas UPPs, constatou falta de coletes à prova de balas, armamentos e até mesmo de água potável. A informação foi revelada em reportagem do programa Fantástico, da TV Globo.

Segundo Pezão, o programa das UPPs deve receber investimento de cerca de R$ 30 milhões para corrigir problemas emergenciais.





domingo, 29 de março de 2015

TRÁFICO RESISTE OCUPAÇÃO MILITAR NA MARÉ



O DIA 28/03/2015 23:46:21


Tráfico resiste após um ano de ocupação militar na Maré. A dois meses da substituição das Forças Armadas pela PM , comunidade faz avaliação


Francisco Edson Alves




Rio - No dia 5, a Força de Pacificação do Complexo da Maré completa um ano de ocupação. A data antecede os dois últimos meses em que tropas do Exército, Marinha e Aeronáutica ficarão por lá. Em junho, elas serão substituídas por mais de 1,4 mil policiais militares. A iminente saída dos militares — são três mil por dia — é esperada num clima misto de alívio, ansiedade e apreensão.

A presença dos soldados, segundo analistas, garantiu ações sociais jamais vistas na comunidade. Por outro lado, não conseguiu inibir a sangrenta disputa por bocas de fumo entre traficantes de duas facções criminosas: o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro.

No Complexo da Maré, o maior conglomerado de favelas do Rio, com 16 comunidades, moram mais de 130 mil pessoas. A maioria delas vive a expectativa da mudança. “Se os traficantes ignoraram os militares, com seus tanques e blindados de combate gigantes e armados com fuzis e pistolas (seriam mais de cinco mil armas), vão respeitar a PM?”, questiona o comerciante X., de 45 anos, que diz estar “cansado de presenciar” tiroteios entre quadrilhas, “mesmo com militares observando tudo a distância”.

“Vamos sentir falta. Ruas e escolas foram recuperadas, bandidos importantes foram presos e horários e altura do som dos bailes funk e de pagode, disciplinados”, pondera o motorista Y., 53.

Traumatizados e com medo de que os confrontos se intensifiquem, muitos moradores estão deixando o complexo. É o caso de Maria do Socorro Viana de Araújo, 40, que acusa soldados do Exército de terem executado seu filho, Felipe de Araújo Vieira, 23, com um tiro de pistola à queima-roupa no peito, no dia 20 de janeiro, na Vila dos Pinheiros.

Felipe é uma das 30 pessoas — incluindo um cabo do Exército — que morreram em 11 meses na Maré em confrontos ou em circunstâncias ainda não esclarecidas. Mais de cem ficaram feridas (51 militares).

Maria do Socorro garante que uma testemunha viu Felipe, que nunca teve envolvimento com o crime, sendo assassinado durante abordagem dos militares. “Ela prestou depoimento na Delegacia de Homicídios, mas ninguém foi preso. Os soldados, que não socorreram meu filho, passaram a me ameaçar na porta da minha casa. Estou indo embora daqui, onde nasci, para não morrer como meu filho”, justifica.

Embora, por questões estratégicas, o Comando Militar do Leste (CML) evite comentar o assunto, as tropas deixarão para a PM um mapeamento de acessos difíceis em todo o território, de dez quilômetros quadrados. Novos caminhos foram abertos e outros ficaram livres de barricadas do tráfico, feitas de barras de ferro, concreto e carcaças de carros.

A presença das Forças Armadas terá custado, no fim das contas, R$ 432 milhões ao governo federal, o equivalente a R$ 1,2 milhão por dia. Agora, o desafio será do governo estadual.


Críticos dizem que dinheiro foi mal usado

Educadores e representantes de entidades de Direitos Humanos, criticam a ocupação da Força de Pacificação. “Não mudou absolutamente nada. É impossível querer mudanças com atitudes de guerra. Os tiroteios na porta da minha escola continuam quase diariamente. Na semana passada, por exemplo, por três dias, os alunos tiveram que ficar abaixadas nas salas de aula com medo de balas perdidas”, argumenta Yvonne Bezerra, do Projeto Uerê, ONG que atende 470 crianças com traumas de violência na Baixa do Sapateiro.

“Os R$ 432 milhões poderiam ter sido investidos em escolas, creches, quadras de esportes e postos de saúde. Intervenções armadas só geram mais violência”, diz o advogado do Instituto de Defesa dos Direitos Humanos, João Tancredo.

Para Edson Diniz, diretor da ONG Redes da Maré, há até boa intenção e esforço dos militares para uma aproximação com a comunidade. “Mas as tropas, preparadas para proteger fronteiras, são vítimas também do quadro atual. Estão como peixes fora d’água”.

CML destaca ‘boas ações’

O delegado da 21ª DP (Bonsucesso), Delmir Gouveia, elogia as tropas na Maré. “Prenderam 570 suspeitos de crimes, entre eles, líderes importantes do tráfico, como Fabiano de Jesus, o Zangado, do TCP, irmão de Marcelo das Dores, o Menor P. Com a ajuda dos militares, também prendemos outros, como Eduardo da Silva, o Avião, maior fornecedor de cocaína do Comando Vermelho, e identificamos dezenas de bandidos”, comenta.

Em nota, o Exército lamentou a morte do cabo Michel Mikami, de 21 anos, por traficantes, em novembro, e diz ter instaurado 17 inquéritos para apurar supostas condutas irregulares e abusos de soldados.

“Além de coibir a violência, o trabalho dos militares e dos órgãos envolvidos visa também criar condições para a entrada do poder público”, diz o texto, citando algumas ações realizadas, entre elas a Justiça Itinerante, a recuperação de instalações escolares, a pintura da Vila Olímpica da Maré e a liberação de vias para a mobilidade urbana, além de encontros periódicos com líderes comunitárias e ONGs.

Tiros e perna amputada

O estoquista Vitor Santiago Borges, 29, é outro que vai embora da Maré. No dia 12 de fevereiro, o carro em que estava, com quatro amigos, foi fuzilado por soldados do Exército na Favela Salsa e Merengue. O motorista não ouviu a ordem de parar numa blitz.

Baleado com tiros de fuzil 762 no tórax e na perna esquerda, Vitor, ainda hospitalizado, teve o membro amputado. Em vídeo no Facebook, ele garante que não voltará para a comunidade. “Está muito violenta”, justifica.

A vendedora M., 43, mudou-se do Parque União com o marido e três filhos ano passado. Paga agora R$ 1,9 mil de aluguel num bairro da Zona Norte. “Alugamos nosso imóvel na Maré, onde meu irmão (de 37 anos) já foi vítima de bala perdida no ombro, por R$ 800. Ele também foi embora. O complexo, por falta de investimentos sociais e da própria falta de educação de boa parte da população, é uma fábrica de bandidos”, opina.

quinta-feira, 26 de março de 2015

AGENTE SOCIAL TORTURADO CONSEGUE ESCAPAR DO MICROONDAS

O DIA 26/03/2015 13:05:27

Agente do Degase foi torturado por 16 horas em favela de Bangu. Homem que seria queimado no chamado 'microondas' conseguiu escapar. Sindicato defende porte de arma fora das unidades para a categoria

Christina Nascimento



Funcionário do Defase foi torturado no Morro do 48, em Bangu. Ele conseguiu fugir antes de ser executado Foto: Leitor O Dia

Rio - O agente do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (Degase), sequestrado por criminosos quando voltava para a casa, em Bangu, foi torturado por 16 horas, até conseguir fugir. Durante esse tempo, ele ficou amarrado numa árvore, no alto do Morro do 48, no mesmo bairro, com os braços presos com fios e a cabeça enrolada em fita adesiva. Além de levar coronhadas, chutes e socos, a vítima ainda teve que se deitar para que os bandidos passassem três vezes por cima dele de moto. Pouco antes de conseguir se desamarrar, numa distração do grupo, ele já tinha recebido a ‘sentença’: seria queimado, no chamado microondas, no início da noite.

O drama de X., que é lotado no Educandário Santo Expedito (ESE), em Bangu, começou por volta da meia-noite de terça-feira. Ele tinha deixado o plantão na unidade, onde naquele dia havia ocorrido uma rebelião, quando foi abordado por dois jovens, com pistolas, que estavam em motocicletas. O agente foi cercado em frente a um posto de gasolina, a poucos metros de casa, e foi obrigado a seguir numa das garupas. Um dos menores disse para X. que o reconheceu como sendo funcionário do Degase e que, por isso, o levaria para dentro da comunidade. O adolescente era ex-interno e tinha cumprido medida socioeducativa no ESE.

Durante o período em que ficou amarrado, X. ouviu conversas dos criminosos, por telefone, com o chefe do tráfico do morro, que pertence a facção Comando Vermelho. Os bandidos queriam autorização para matá-lo. A permissão foi dada, e o grupo decidiu que ele seria morto, às 18 horas, queimado. O agente, que trabalha há apenas um ano no sistema Degase, também ficou sabendo pelos bandidos que eles acompanhavam a rotina de alguns funcionários.

X. conseguiu escapar por volta das 16 horas, quando policiais do 14º BPM (Bangu) se preparavam para entrar na comunidade para resgatar o agente. Preocupados com a presença dos militares, os criminosos o deixaram sozinho, o que facilitou sua fuga. Ele está internado para fazer exames, mas está decidido a não voltar mais casa. Para o presidente do Sind Degase, João Luiz Pereira Rodrigues, o caso, além de extremamente grave, mostra a fragilidade na segurança dos agentes. Ele defende o porte de arma fora das unidades.


Após tortura, agente do Degase está decidido a não voltar mais para casa Foto: Leitor O Dia

“Vivemos a rotina do medo. Esse agente nasceu de novo. A realidade não permite que nossos funcionários fiquem circulando sem ter como se defender. Se ele tivesse armado, pelo menos teria como reagir. Temos diversos colegas que estão sendo assassinados todos os anos no país. Em 2013, no Rio, perdemos três colegas. É preciso tomar uma atitude. Dentro da unidade, precisamos do EPI (Equipamento de Proteção Individual), para que não ocorra como na rebelião do Santo Expedito. Naquele dia, os agentes tiveram que correr para a rua porque os menores estavam com armas improvisadas”, alertou ele.