O Rio de Janeiro é o espelho do Brasil. O que ocorre no Rio de Janeiro fatalmente se transmitirá em cadeia para os outros Estados da Federação. As questões de justiça criminal e ordem pública não fogem desta regra. Portanto, é estratégico manter a atenção, estudar o cenário, analisar as experiências e observar as políticas lá realizadas, ajudando no alcance dos objetivos. A solução desta guerra envolve leis duras e um Sistema de Justiça Criminal integrado, ágil, coativo e comprometido em garantir o direito da população à segurança pública.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

A RETOMADA DA CIDADANIA, SERÁ?




Leo Correa

A RETOMADA DA CIDADANIA

Mário Simas Filho é diretor de redação da revista ISTOÉ

Olhar a intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro sob a ótica ideológica pode trazer algumas imagens turvas. Não está em jogo a discussão de poder civil ou militar, muito menos liberdades e direitos fundamentais. Essas são questões teoricamente já resolvidas no País. Trata-se, sim, de uma operação de resgate da cidadania. E não existe Estado Democrático de Direito onde não há cidadania. O que queremos ver no Rio de Janeiro nos próximos meses está longe de serem baionetas se impondo sobre a sociedade civil, mas as Forças Armadas a serviço da sociedade, tendo como limites para a ação todos os preceitos impostos pela Constituição. Talvez outras razões possam ter influenciado na decisão de intervir na segurança fluminense, mas, quaisquer que sejam elas, deverão ser postas de lado. Do contrário, apenas teremos militares nas ruas. O problema da segurança continuará e ainda desmoralizaremos nossas tropas.

Esse pode ser o momento oportuno para que finalmente se construa efetivamente um projeto nacional de segurança pública, coisa que muitos falam, mas nada fazem, embora existam dezenas de ONGs tratando do tema. Lembremos que o PSDB passou oito anos no governo federal, há décadas comanda importantes Estados e não colocou em prática nenhuma política efetiva de segurança pública. Apenas enxugou gelo. Pode-se dizer o mesmo do PT que passou 14 anos no Palácio do Planalto e se limitou a colocar debaixo do tapete as questões da segurança pública. E de nada vale, diante dos corpos de crianças sem vida, vítimas de balas perdidas, ficar pontificando números de investimentos em viaturas, policiais, armamentos etc. Claro que faltam recursos, claro que verbas são desviadas, mas a questão é bem maior. Fora de PT e PSDB, forças tidas como mais conservadoras também se mostraram ao longo dos anos incapazes de formular um projeto de segurança. Têm representação no Congresso e se limitam a entoar o discurso do ódio, da intolerância, da segregação e da violência. Experiências de diversas partes do mundo ensinam que não se combate crime organizado armando a população e reduzindo a maioridade penal. É preciso muito mais. No caso do Rio de Janeiro, seria um bom começo afastar os diversos comandos da PM e da Polícia Civil, que, como já manifestou o ministro da Justiça, Torquato Jardim, estão comprometidos. Com os corruptos longe e punidos, é possível que a população comece a olhar as forças de segurança como um exército do bem.

A imagem do resgate da cidadania é talvez a que melhor represente esse momento. Só conseguiremos sucesso nessa missão se a sociedade unir-se em torno de um projeto que deve ser transparente e apresentado o mais rápido possível. Generais que cogitam torturar como método para se combater o crime devem ser dispensados. Assim como qualquer outra ideia que confronte o Estado Democrático de Direito. Responsabilidade, ética e compromisso com o País são armas indispensáveis na guerra contra a violência. Se interesses partidários ou vaidades pessoais se sobrepuserem, a situação poderá ficar ainda mais difícil. Continuaremos a sofrer no presente e a matar o futuro.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA -  MAIS UM EQUÍVOCO. A intervenção das forças armadas no Rio será paliativa sem o Estado de Defesa. Não terá capacidade de restabelecer a ordem pública porque não tem a força da lei e da justiça exigida no Estado Democrático de Direito. Assim com a pacificação, a intervenção sairá derrotada, pois focará nas polícias e nos presídios, sem alcance e sem suporte no Judiciário e no Legislativo onde imperam a permissividade, a leniência, o garantismo e a impunidade do crime.  A cidadania, o exercício, a garantia e a preservação dos direitos, só será possível com lei, justiça, ordem pública e bandidos na cadeia, isolados, extraditados, cumprindo pena e sabendo que o crime, por menor que seja, não compensa.

A VIDA SOB INTERVENÇÃO



Um delegado de polícia, uma moradora de Ipanema e um ativista da Rocinha­­. Acompanhamos a rotina de três cariocas ao longo da última semana para mostrar o que mudou e o que ainda precisa melhorar para que a cidade se torne de fato mais segura



ABORDAGEM Militar revista morador da favela do Kelson’s, na zona norte do Rio, onde uma mulher foi torturada por traficantes na segunda-feira 19: desafio é agir sem abusar da força (Crédito: Leo Correa)


REVISTA ISTO É Eliane Lobato 23.02.18 - 18h05



O carioca mistura os sentimentos de esperança e suspeita quando o assunto é a intervenção federal em vigor desde a sexta-feira 16 na segurança pública em todo o estado do Rio de Janeiro. “Torço, como todos, para que essa intervenção seja bem sucedida e que tenhamos um pouco de paz. Um pouco, não. Queremos paz completa. Não é pedir muito, é?”, indaga a gerente comercial Kika Gama Lobo, 53 anos, moradora de Ipanema. Criadora da hashtag “Riode Merda”, ela diz ter sido hostilizada por sua postura crítica em relação à segurança. “Criei isso depois que minhas duas filhas foram assaltadas. Foi meu meio de desabafo e de colaboração. Ali, falo de roubalheira, de falta de ética – e elogio também”. Assim como ela, moradores das zonas nobres da cidade dizem não ter percebido uma diferença significativa nas ruas durante a primeira semana de intervenção. Isso porque os tanques, blindados e soldados das Forças Armadas não ocupam os pontos turísticos e bairros da zona sul – como já ocorreu em eventos de grande porte, como os Jogos Olímpicos de 2016. As ações começaram em locais estratégicos, com a ocupação de rodovias federais e estaduais, varredura em presídios e patrulhamento de favelas violentas. Em uma delas, a do Kelson’s, no Complexo do Alemão, uma moradora foi torturada por traficantes na segunda-feira 19. O motivo: suspeita de ter passado informações do tráfico para agentes das Forças Armadas.

Nascido e criado na favela da Rocinha, na zona sul, Leandro Lima, 35 anos, viveu uma dramática experiência tempos atrás, quando foi parado, numa viela por policiais do Bope. “Eu estava indo para o trabalho e um policial começou a me fazer perguntas com uma arma apontada para minha cabeça e o dedo no gatilho. Eu só pensava que se algum mal entendido acontecesse e o dedo dele apertasse, minha vida acabaria ali.” Lima é cameraman da TV Globo, mora na parte alta da favela e dirige a mídia comunitária FaveladaRocinha.com, que distribui um jornal impresso na comunidade e está presente em mídias sociais. Ele faz parte do grupo que gravou o vídeo “Dicas para Sobreviver a Uma Abordagem Indevida”, que aconselha ao jovem negro de favela, por exemplo, a não usar guarda-chuva de cabo longo pois isso pode ser confundido com uma arma e a carregar o cupom fiscal de qualquer objeto que ele esteja portando, seja um iPhone ou um cordão para comprovar a compra e descartar o roubo. “Os moradores de favelas estão apreensivos porque têm sofrido incursões truculentas ao longo dos anos, sem solução para eles. Não são tratados como cidadãos, as portas de suas casas podem ser arrebentadas por chutes”, diz Lima. “Para nós, é mais do mesmo. A pior violência que sofremos nas favelas não é a da falta de segurança e, sim, da falta de saneamento básico, transporte, posto de saúde, educação, cultura”, afirma. Leandro Lima 35 anos, morador da Rocinha, São Contado Profissão Cameraman e fundador da mídia comunitária FaveladaRocinha.com (Crédito:Stefano Martini)

O Delegado do Departamento Geral de Polícia Especializada (DGPE), Orlando Zaconne, 54 anos, disse à ISTOÉ que o clima entre os policiais também é de inquietação: ”O delegado é uma autoridade jurídica. A partir do momento em que a segurança pública passa a ser comandada por militares, gera desconforto.” O delegado lembra que a intervenção está sendo discutida e espera-se que haja “garantia democrática do exercício da função policial.”
Kika Gama Lobo 53 anos, moradora de Ipanema Profissão Gerente comercial, criadora da plataforma Atitude 50 e da hashtag “RioDeMerda” (Crédito:Stefano Martini)

Não são poucos os especialistas em segurança pública ou da área acadêmica que duvidam do bom resultado da operação comandada pelo general Walter Souza Braga Netto, em especial por dois motivos: a indefinição sobre o aporte financeiro federal para suprir as graves necessidade da Polícia e pelo desconhecimento de qual será o plano de segurança pública para o estado. Para o antropólogo Rubem César Fernandes, também fundador da ONG Viva Rio, o povo fluminense “já teve muitas esperanças de combate à violência que levaram à desilusão.” Uma delas, foi o projeto Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) que “mostrou o caminho a partir de 2008 e chegou à decadência nos últimos anos.” A suspeição se deve, especialmente, aos confrontos com armas em favelas onde a maioria dos moradores é de cidadãos honestos, mas que, infelizmente, vivem em áreas controlados por bandidos. “E ninguém aguenta mais tanto tiro”, diz o antropólogo. Ignacio Cano, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), diz que a “motivação é política e está longe de significar solução para a questão da segurança pública no estado.” Ele frisa a importância de destinação de verbas para recuperar o aparato policial do Estado, contratar policiais ou recuperar viaturas.

“O delegado é uma autoridade jurídica. A partir do momento em que a segurança pública passa a ser comandada por militares, gera desconforto” Orlando Zaconne, delegado do Departamento Geral de Polícia Especializada Orlando Zaconne 54 anos, morador da Barra da Tijuca Profissão Delegado do Departamento Geral de Polícia Especializada (DGPE) (Crédito:Stefano Martini)

Julita Lemgruber, ex-diretora do sistema penitenciário do Rio e coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), diz que a intervenção pode momentaneamente transmitir sensação de segurança. “Mas se não resolvemos algumas questões básicas, não vamos a lugar nenhum.” Questões básicas são a corrupção dentro da polícia e a estratégia de enfrentar o varejo do tráfico à bala. No início da semana, uma operação policial em Caxias, na Baixada Fluminense, deixou um homem morto e outras duas pessoas feridas, entre elas uma criança. Revoltados, moradores atearam fogo em um ônibus ­­— cenas que a intervenção ainda não foi capaz de suprimir da rotina do Rio.


COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - NO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO, A PAZ SOCIAL NÃO SE GARANTE PELAS ARMAS E SIM PELA FORÇA DA LEI E DA JUSTIÇA. Por isto, as estratégias de pacificação não deram certo e nem esta intervenção sem Estado de Defesa conseguirá o objetivo de restabelecer a ordem pública no Rio. Será paliativa e temporária. Não haverá "PAZ COMPLETA", mas no máximo "sensação de segurança" em alguns lugares até encerrar a "intervenção".

A questão maior não é a corrupção nas polícias e nos poderes e sim a impunidade desta corrupção e a impunidade dos traficantes, favorecidas pela omissão, conivência, irresponsabilidade, leniência e permissividade das autoridades que não impõem leis severas, um sistema de justiça ágil e coativo, e políticas sociais capazes de resgatar a população das mãos do crime, punindo os bandidos, extraditando os traficantes internacionais, policiando as fronteiras e fortalecendo as polícias expulsando os corruptos e capacitando em efetivos e recursos.

sábado, 23 de setembro de 2017

A GUERRA NA ROCINHA. FORÇAS ARMADAS CERCAM FAVELA



ZERO HORA 23 de Setembro de 2017


SEGURANÇA. Forças Armadas ocupam a Rocinha


REFORÇO DE 950 HOMENS das tropas federais está no Rio para auxiliar a Polícia Militar no cerco à guerra entre traficantes



Intensos tiroteios entre policiais e criminosos na Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro, provocaram tumulto, pânico e alteraram a rotina de cariocas na sexta-feira. Compromissos desmarcados, aulas canceladas e medo de trafegar por locais próximos à favela são alguns dos reflexos da crise de segurança vivida na capital fluminense.

O presidente Michel Temer autorizou o envio de 950 homens das Forças Armadas, a pedido do governo do Rio. Por volta das 15h30min de sexta-feira, as tropas federais começaram a ocupar a favela, que teve o espaço áereo cercado pela Aeronáutica.

- Foi autorizada operação das Forças Armadas para que seja feito cerco na Rocinha, liberando o policiamento para que ele possa subir e continue com o enfrentamento com os criminosos - disse o ministro da Defesa, Raul Jungmann.

Também fazem parte do reforço 14 veículos blindados das Forças Armadas, dos quais 10 se deslocaram para a Rocinha. Em princípio, a ideia é de que os veículos não subam o morro, mas isso pode ocorrer se a polícia precisar de proteção blindada.

Conforme o ministro, há um contingente de 10 mil homens disponíveis no Rio, que poderão ser acionados caso o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) faça nova solicitação. Jungmann reconheceu que o problema no Estado é estrutural, mas ponderou que, neste momento, é necessário combater o quadro considerado urgente:

- Há um doente com fraturas múltiplas e hemorragia interna. E ele tem também cirrose. Do que vamos cuidar primeiro? A cirrose é estrutural e a hemorragia é a urgência. Estamos trabalhando, evidentemente, sobre a urgência.

AULAS CANCELADAS E PÂNICO NAS RUAS

Apesar do clima tenso com a chegada dos militares, não houve registros de tiroteios na parte baixa da favela. Os homens se posicionaram nos acessos à Rocinha. Dentro da comunidade, o Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar (PM) realizou incursões em busca de criminosos envolvidos na guerra entre facções, que se ampliou desde o último domingo (leia ao lado).

Na sexta-feira, o Bope entrou na favela às 5h e logo a troca de tiros com traficantes se iniciou. Por volta das 8h, um grupo de menores ateou fogo a um ônibus na Avenida Niemeyer, em São Conrado.

- Quando cheguei embaixo da passarela da Rocinha, vi muitos policiais, cerca de 20, saindo do túnel com fuzis, prontos para invadir. De repente, começou um tiroteio violento no asfalto. Acho que fui um dos últimos carros a passar pelo túnel, que foi fechado depois. Nem sei como consegui, minhas pernas tremiam - disse o empresário Ricardo Tupinambá, 54 anos, que mora na Barra da Tijuca.

Ao menos 25 linhas de ônibus que passam pela região tiveram de mudar de rota. O acirramento da tensão na Rocinha fez colégios do Rio cancelaram atividades - quase 5 mil alunos ficaram sem aulas. Um dia antes, a Escola Americana já havia enviado comunicado aos pais informando que o campus da Gávea, vizinho à favela, seria fechado. A instituição afirma que tem feito o que pode para manter a escola aberta para evitar transtornos ao aprendizado, mas que decidiu não abrir para garantir a proteção dos estudantes.

O Colégio Teresiano, também em região próxima à Rocinha, cancelou as atividades ao ar livre como medida preventiva para "a segurança de alunos, professores e funcionários". A Escola Parque decidiu suspender as aulas, segundo comunicado, após contato com a PM.

RELATOS DE TROCAS DE TIRO EM OUTRAS COMUNIDADES

Após o registro de conflito no Morro Dona Marta, em Botafogo, a Escola Britânica do Rio também enviou aviso aos pais informando sobre a proibição para circulação em áreas externas e a suspensão de atividades extracurriculares que normalmente ocorrem à tarde.

A empresária Laura Mariani, 54 anos, mora no Humaitá, perto do Dona Marta, e se preparava para sair de casa, por volta das 10h, quando começou a ouvir tiros:

- Durou 20 minutos. Resolvi não sair. Amigos que moram no bairro me falaram que ficaram presos em casa aguardando uma trégua.

Ainda houve relatos de tiroteios nas comunidades de Chapéu Mangueira, na Zona Sul, e no Complexo do Alemão, na Zona Norte.



Por trás da guerra, Nem, "primeira-dama" e ex-guarda-costas


Um traficante preso em penitenciária de segurança máxima, sua namorada e seu ex-guarda-costas estão por trás do conflito na favela da Rocinha, que ganhou contornos de guerra na sexta-feira. Segundo uma das linhas de investigação da polícia, o confronto na comunidade foi ordenado por Antônio Francisco Bonfim Lopes, conhecido como Nem, de dentro de uma penitenciária federal.

Preso desde 2011, Nem mantinha o comando do tráfico na região com o auxílio de seu braço direito, Ítalo Jesus Campos, o Perninha, encontrado morto em agosto. Conforme a Polícia Civil, a execução foi ordenada por Rogério Avelino da Silva, o Rogério 157, ex-guarda-costas de Nem. Ele receava que Perninha, a mando do Nem, tomasse a favela.

O conflito estaria relacionado a um racha entre a mulher de Nem, Danúbia Rangel, sua "herdeira", e Rogério 157. Haveria disputa por protagonismo entre ambos, a partir da busca de maior influência pela "primeira-dama". Especula-se que Danúbia tenha sido expulsa da Rocinha a mando de Rogério. Os dois estão foragidos.

No último domingo, o conflito acentuou-se depois que dezenas de traficantes de outras regiões, como São Carlos e Vila Vintém, controladas pela quadrilha conhecida como Amigos dos Amigos (ADA), invadiram a Rocinha. Os criminosos teriam agido a pedido de Nem para reaver o controle do complexo das mãos de Rogério - uma disputa interna na favela por integrantes da mesma facção.

A gota d?água para a invasão da comunidade pelo ADA teria sido a expulsão de parentes de Nem por traficantes ligados a Rogério. Acuado, o bando do ex-guarda-costa teria começado a se desmantelar. Integrantes estariam deixando a Rocinha, com medo de serem mortos ou presos, e fugindo para outras áreas. De acordo com a polícia, na sexta-feira, Rogério continuava escondido na mata atrás do complexo.

 
CAROLINA BAHIA, RBS BRASÍLIA


A FALÊNCIA DO RIO


A necessidade de reforço na segurança do Rio, com homens das Forças Armadas, é a prova da absoluta falência do Estado. Ações aplaudidas no passado, como as UPPs, se desmancharam por falta de continuidade, gestão e recursos para as comunidades. O Rio foi saqueado por uma gangue de políticos. O dinheiro que alimentou a corrupção desapareceu das políticas públicas. E, como em outras regiões do país, o controle do sistema prisional foi negligenciado. O caldeirão transbordou.

domingo, 15 de maio de 2016

A SÍNDROME DE DOM QUIXOTE NO RIO DE JANEIRO

PÁGINA INTERNACIONAL, 15/12/2010

Por Raphael Lima

[O colaborador Giovanni Okado não pode acessar o blog hoje, então estou postando um excelente texto de sua autoria. Aproveitem!]




 GIOVANNI OKADO



Quem não se lembra do velho fidalgo Dom Quixote de La Mancha, o personagem medieval de Miguel Cervantes que queria reviver os tempos romanescos da cavalaria? E quem não se lembra dos acontecimentos recentes na cidade do Rio de Janeiro, que passaram na TV como um “Tropa de Elite” ao vivo? O que ambos têm em comum? O emprego das Forças Armadas para zelar pela segurança pública.

Inevitavelmente, a primeira pergunta a ser colocada na ordem do dia é: afinal, para que servem as Forças Armadas? O artigo 142 da Constituição define como sua competência primordial e exclusiva a defesa da pátria contra hostilidades externas e a garantia dos Poderes Constitucionais, sendo competência secundária o seu emprego para a manutenção da lei e da ordem interna, quando solicitado pelos Poderes da República.

É competência das forças policiais, discriminadas no art. 144, a manutenção da segurança pública. No entanto, em caráter emergencial, na impossibilidade de mantê-la pelas forças competentes, pode-se recorrer ao braço armado, respeitando o Decreto nº 3.897, de 2001, cujo emprego deve ser temporalmente limitado e territorialmente especificado.

Em uma sociedade democrática e, felizmente, livre de ameaças externas imediatas a nossa soberania, a percepção comum que se têm é de delegar outras ocupações aos militares, já que “não estão fazendo nada”. Ledo engano. Militar não é empregado da Camargo Correia, ou assistente social. Não deve carregar pás ou roupas doadas, mas armas; ele existe para fazer a guerra, o reino da vida ou da morte, como definiu Sun Tzu há mais de dois milênios.

O que aconteceu no Rio de Janeiro foi uma guerra? Guerra é, antes de tudo, o enfrentamento entre dois ou mais exércitos regulares, cada qual lutando pela sua bandeira. Para o general prussiano Clausewitz, tido como o filósofo da guerra, esta é “a continuação da política por outros meios”, enquanto que o historiador militar John Keegan a considera como um fenômeno cultural.



Três questões: os traficantes dos morros fluminenses podem ser considerados como um exército regular? Quais os seus objetivos políticos? Que inclinação beligerante eles têm? Uma fuga completamente desorganizada, reprovável estrategicamente até pelo pior exército do mundo, a estrita finalidade de lucrar com o tráfico de drogas e nenhuma cultura bélica. Portanto, isto está longe de ser uma guerra. Um primeiro sintoma da síndrome de Dom Quixote, tratar moinhos de vento como dragões.

Se não há dragões, e sim moinhos de vento, por que empregar os supostamente “desocupados” militares? Porque as forças policiais competentes foram incapazes de manter a ordem interna. Mas o buraco é mais fundo. O emprego do braço armado é recorrente em questões de segurança pública no Rio de Janeiro, o que leva a crer que impera uma inércia política – em âmbito federal e estadual – no adequado tratamento da criminalidade e violência urbana: por exemplo, 40 toneladas de drogas não surgem da noite para o dia. Não se resolve o problema das forças policiais criando problemas para as Forças Armadas!

Outro sintoma da síndrome de Dom Quixote. É mais do que visível que o aclamado poder do Estado não sobe os morros fluminenses. Nos tempos de Brizola, houve até um consentimento tácito: policiais não sobem e criminosos não descem. O Estado é uma instituição perpétua e não intermitente, não pode dar a sua demonstração de força circunstancialmente, com o pretenso heroísmo quixotesco, que exagera na qualidade de suas batalhas.

É preciso pôr termo a esta síndrome de Dom Quixote no Rio de Janeiro, de modo que as Forças Armadas e as forças policiais exerçam corretamente as funções próprias que lhes são atribuídas. A acomodação política diante do problema produz e reproduz o paradoxo quixotesco: sob o conforto da prontidão do emprego das Forças Armadas para remediar as inércias administrativas, celebra-se a efêmera apologia do poder do Estado. Até quando?

sábado, 10 de outubro de 2015

POLICIAIS DE UPP SOFREM ÓDIO DOS MORADORES

 



Policiais de UPPs dizem sofrer “ódio” de moradores em favelas . Pesquisa da Universidade Candido Mendes detalha a situação dos PMs empregados nas Unidades de Polícia Pacificadora do Rio de Janeiro

HUDSON CORRÊA
REVISTA ÉPOCA 10/10/2015 - 01h09 -


 

A maioria dos policiais militares das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), instaladas nas favelas do Rio de Janeiro, acha que os moradores sentem “ódio, desconfiança e medo” deles. Grande parte afirma que fica insegura e também insatisfeita durante o trabalho de policiamento nos morros cariocas. Mas, como última esperança, eles ainda conservam uma opinião positiva sobre as unidades pacificadoras. Esses dados são da pesquisa UPPs: o que pensam os policiais, feita pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), da Universidade Candido Mendes, divulgada deste sábado (10). As pesquisadoras Silvia Ramos, Barbara Musumeci Mourão e Leonarda Musumeci entrevistaram 2002 policiais de 36 UPPs, entre 30 de julho e 19 de novembro de 2014. A amostra representa 21% do total de PMs nas unidades.



As UPPs em 2008 e ainda estão em expansão. Segundo o governo do Rio, as unidades pacificadoras têm a missão de retomar territórios dominados por traficantes de drogas e milicianos que agem armados com fuzis, metralhadoras e até granadas. O Cesec está na terceira rodada de pesquisas sobre o projeto. Atualmente, as unidades enfrentam uma onda de violência com mortes de policiais militares e de moradores, incluindo duas crianças de 11 anos neste ano.

Em 2010, na primeira sondagem, 66,5% dos entrevistados disseram que a maioria dos moradores tinha um “sentimento positivo” em relação a eles, policiais. Na segunda pesquisa, em 2012, a percepção de apoio caiu para 43,7%. Agora, no trabalho de 2014, apenas 25,1% acham que a população das comunidades os aprova. Para 60,1%, existe um “sentimento negativo” que, segundo eles, são “raiva, ódio, hostilidade, rejeição e aversão, desconfiança, resistência e medo”.

O Cesec perguntou se, nós últimos três meses, algum morador fez qualquer tipo de ofensa, pelo menos uma vez. Os números são surpreendentes: 65,8% relataram xingamentos, 63% reportaram desrespeito e 55,8% disseram terem sido alvos de arremesso de algum objeto. A Secretaria de Segurança Pública diz que essa última agressão vai da simples cusparada a um incrível caso do lançamento de um vaso sanitário sobre policiais militares, mas não deu detalhes sobre onde isso ocorreu.

“Como você se sente na maior parte do tempo, sendo policial de UPP”, perguntaram os pesquisadores. No questionário de 2012, 46,2% responderam que estavam satisfeitos, 26,4% insatisfeitos e 27,4% indiferentes. Em 2014, os índices passaram a apenas 28,3% de satisfeitos e 35,5% de descontentes. A pesquisa também perguntou se o policial se sentia seguro durante o trabalho na unidade pacificadora; 42,4% disseram que estão inseguros. O percentual aumenta em áreas mais violentas, que o Comando da PM define como áreas vermelhas.

Duas coisas importantes aconteceram entre as pesquisas de 2012 e 2014. As UPPs chegaram às áreas controladas pelos mais poderosos traficantes do Rio, como a Rocinha – na Zona Sul, a maior favela do Brasil com 69 mil habitantes – e o Complexo do Alemão, na Zona Norte, de onde partiam ordens para bandidos incendiarem carros e ônibus na cidade. Num segundo momento, os criminosos expulsos tentaram reocupar o território, usando táticas de guerrilha que causaram mortes de policiais militares. Em algumas favelas dos complexos do Alemão e da Vila Cruzeiro, percorridos por ÉPOCA, policiais militares visivelmente assustados patrulham becos estreitos sabendo que podem dar de cara com traficantes armados.

Algumas ações desastradas da PM alimentam o rancor dos moradores. Em julho de 2013, uma equipe da UPP da Rocinha torturou, matou e sumiu com o corpo do pedreiro Amarildo de Souza. Soldados com pouco preparo se envolvem em tiroteios que resultam na morte de inocentes, como a de uma criança de 11 anos no Alemão, em abril, e de outra da mesma idade no Complexo do Caju, em outubro. São cada vez mais frequentes os protestos em que moradores descem do morro até o asfalto com placas de "fora UPPs". O secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, diz que a polícia está isolada nas favelas sem ajuda de outros órgãos responsáveis pela assistência social.

A primeira vítima dessa guerra foi a policial Fabiana Aparecida de Souza, assassinada na favela de Nova Brasília, no Alemão, em julho de 2012. O crime acendeu a luz amarela na segurança das UPPs porque, conforme a pesquisa do Cesec, as policiais mantêm menos contato com suspeitos de crimes e, por isso, possuem chances menores de ficar no meio de um tiroteio. Desde 2012 até agora, 23 policiais militares morreram em serviço nas UPPs. O caso mais recente foi o do soldado Caio Cesar de Melo, morto no começo do mês no Complexo do Alemão. Além de policial, Melo trabalhava com a dublagem de personagens de cinema. Era dele a voz de Harry Potter na versão brasileira.

O pessoal das UPPs representa 20% do efetivo total da Polícia Militar, porém 8 dos 18 policiais militares mortos em serviço em 2014 pertenciam às unidades pacificadoras. Isso quer dizer que um soldado de UPP tem atualmente maiores chances de ser assassinado em relação aos que trabalham nos batalhões convencionais da PM.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública, o aumento da violência provocou mudanças na estratégia de patrulhamento nas favelas. A pesquisa do Cesec mostrou que os grupos táticos, mais preparados para um conflito armado, empregavam 7,2% dos policiais em 2010. Agora o índice passou a 22,2%, enquanto a ronda a pé diminuiu.

A Secretaria de Segurança afirma que desde janeiro já treinou mais de 3 mil policiais, tanto para eles se protegerem melhor em eventuais confrontos, como para melhorar o relacionamento com moradores das favelas. Nem tudo está perdido. O Cesec mostra que 41% dos policiais ainda têm uma “opinião geral positiva” das UPPs contra 35,9% que a veem de modo negativo.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

PRISÕES E APREENSÃO DE POTENTES ARMAS E MUNIÇÕES DE GUERRA

DIÁRIO GAÚCHO 11/08/2015 | 18h16

Polícia do Rio prende traficantes rivais de Playboy. Durante a operação, foram apreendidas armas, como fuzis de longo alcance, além de munições



Foto: Disque Denúncia / Reprodução


O Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar (PM) do Rio de Janeiro prendeu nesta terça-feira seis dos traficantes mais procurados da cidade. Eles foram encontrados em um condomínio próximo ao Complexo do Chapadão, na zona norte da cidade, e não ofereceram resistência, segundo a PM. Durante a operação, foram apreendidas armas, como fuzis de longo alcance, com grande potencial de destruição, além de munições.

Entre os presos estão Ricardo Chaves de Castro Lima, o Fu da Mineira, e Cláudio José de Souza Fontarigo, o Claudinho da Mineira. Ambos tinham uma recompensa por sua captura avaliada em R$ 10 mil, segundo o Portal Procurados, do Disque Denúncia.

Fu era chefe do Comando Vermelho, facção criminosa que chefia o tráfico de drogas no Complexo do Chapadão, em Costa Barros, e no Morro da Mineira, no Catumbi, ambos na zona norte do Rio.

Os criminosos também eram rivais da facção de Celso Pinheiro Pimenta, o Playboy, morto no último sábado. A disputa das facções pelos pontos de venda de drogas na região de Costa Barros levou a inúmeros confrontos armados nos últimos meses. De acordo com o comandante do Bope, o tenente-coronel Carlos Sarmento, a ação que prendeu a "cúpula do crime" do Comando Vermelho foi feita para impedir que a organização rival ganhasse território com a morte de Playboy.

O secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame, defendeu mudanças na legislação para dar maior responsabilidade penal a quem tiver porte de armas de uso restrito das Forças Armadas.

— Estou preparando uma [proposta de] alteração no Estatuto do Desarmamento. Não é possível que uma pessoa tenha um fuzil em casa e na hora de ser julgada não tenha um olhar diferenciado para o porte desse tipo de equipamento. Queremos dar um basta. Chega de termos aqui essa idolatria por armas de guerra. A lei precisa ser forte para que as pessoas entendam que quem tem uma arma de guerra, ou uma dinamite para estourar caixa eletrônico, esse porte não pode ser tratado de maneira normal, como hoje nos diz a lei.


As prisões de hoje fazem parte de uma série de operações feitas em conjunto pelas polícias militar, civil e federal em comunidades do Rio de Janeiro. Nessa segunda-feira quase 6 mil alunos ficaram sem aula por conta da ocupação no Complexo da Pedreira, em Costa Barros, que resultou na morte de Playboy.

A Secretaria Municipal de Educação informou que nesta terça-feira, em Costa Barros e entorno, de acordo com a 6ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE), duas escolas e um Espaço de Desenvolvimento Infantil (EDI) estão sem atendimento nos dois turnos. Já no turno da tarde, estão sem atendimento dois EDIs, uma escola e uma creche. As unidades citadas atendem 1.617 alunos. A secretaria esclarece ainda que o conteúdo perdido será reposto.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

UM POLICIAL MORRE A CADA 40 DIAS EM UPPS DO RIO



Henrique Coelho Do G1 Rio 09/07/2015 06h45

Um policial morre a cada 40 dias em UPPs do Rio desde 2014. Em 2015, 53 policiais de UPP foram baleados e sete foram mortos.  Coordenadoria de Polícia Pacificadora reconhece aumento da violência.




Entre 1º de janeiro de 2014 e 8 de julho de 2015 – período em que se agravou a crise nas Unidades de Polícia Pacificadoras – 15 policiais lotados em nas UPPs morreram em serviço no Rio de Janeiro. A média é de um policial morto a cada 40 dias neste intervalo, incluindo o soldado Alex Amâncio, de 34 anos, que morreu quando patrulhava a região próxima à UPP Andaraí, na última segunda-feira (6).

O G1 inicia nesta quinta-feira (9) uma série de três reportagens para contar a história dos policiais que morreram dentro de comunidades que contam com a presença de UPPs no Rio.



Policiais reclamam da falta de condições de trabalho e a Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) reconhece o aumento da violência, mas defende o projeto, que enfrenta seu pior momento desde a implantação da primeira unidade, no morro Dona Marta, em dezembro de 2008.




Em 2014, o numero de policiais mortos em serviço em áreas de UPP chegou a oito, o maior desde o início do projeto. Em 2015, foram sete até a noite de terça-feira (7).

Em 2012 foram registradas as primeiras mortes de policiais em áreas de UPP: quatro. No ano seguinte, mais três, somando 22 policiais mortos desde o início do projeto.

O número de policiais feridos em operações, patrulhamentos ou ataques às sedes e pontos fixos das UPPs também assusta. Segundo fontes do G1, 87 policiais lotados em UPPs foram baleados em 2014. Em 2015, até de 8 de julho, 53 policiais que pertencem às UPPs foram feridos a bala. Desde 2014, portanto, a média é de 1 baleado a cada quatro dias. A PM e a Coordenadoria da Polícia Pacificadora não informam números oficiais de feridos.

Até a publicação desta reportagem, a Secretaria de Estado de Segurança e o secretário José Mariano Beltrame não responderam ao G1.

'Projeto falido', diz viúva de PM

Em 2015, foram dois policiais mortos na UPP Cidade de Deus (Zona Oeste), mais precisamente na localidade conhecida como Apartamentos, em um intervalo de apenas 20 dias. Um deles era Bruno Miguez, de 30 anos, que levou um tiro na cabeça durante patrulhamento no dia 29 de janeiro. Um PM que estava com ele foi baleado no ombro, mas Miguez não resistiu. No dia 18 de fevereiro, Rogério Pereira da Silva, de 39 anos, foi baleado ao sair da base da UPP Apartamentos e também morreu.

O soldado da UPP Cidade de Deus morreu após levar um tiro na cabeça durante patrulhamento

Michelle Miguez, viúva de Bruno, conta em entrevista exclusiva ao G1 sente como se ele ainda estivesse presente em sua vida, e lembrou que o soldado estava havia pouco tempo na unidade.

"A UPP é um projeto falido, feito para os policiais morrerem. Pedi para ele não ir para lá, pois ele estava no Turano e lá era tranquilo. A Cidade de Deus é muito mais complicada, e ninguém nunca o ensinou a se movimentar lá", diz ela, que se emocionou ao lembrar do enterro de Bruno. "Quando eu olhei para o caixão, naquele momento queria ter ido com ele. E acho que não vai demorar muito para reencontrá-lo. Nosso amor é além da vida", garante.

Alemão é ponto crítico


Das 15 mortes ocorridas entre janeiro de 2014 e de 2015, 53% delas foram em comunidades dos conjuntos de favelas do Alemão e da Penha, vizinhos na Zona Norte do Rio: O soldado Wagner Vieira Cruz e o tenente Leidson Acácio (Vila Cruzeiro); a soldado Alda Rafael Castilho (Parque Proletário); o soldado Rodrigo Paes Leme e o capitão Uanderson Manoel da Silva (Nova Brasília); e o soldado Fábio Gomes da Silva (Fazendinha), todos em 2014. Em 2015, morreram o cabo Anderson Fernandes (Fazendinha); e o soldado Marcelo Soares do Reino (Alemão).

Comandante da UPP Nova Brasília, capitão
Uanderson morreu em 2014
(Foto: Divulgação / Polícia Militar)

“Lá é o inferno. Tive que me esconder várias vezes para não morrer”, resumiu um ex-soldado da UPP Fazendinha, que não se identificou à reportagem do G1 por motivos de segurança. No ano passado, um PM expulso pela corporação após críticas ao na época comandante das UPPs, Frederico Caldas, já havia dito que "o Alemão era um castigo" para os soldados.

"Não temos treinamento contínuo de tiro e muitos de nós não somos preparados para atuar em área conflagrada. Essa é a verdade.", confessou outro soldado da UPP Alemão.

Em 2015, foram feridos policiais de 20 UPPs diferentes, com destaque para a UPP Alemão, com 10 feridos. De janeiro até 6 de julho, 25 policiais foram baleados apenas nos conjuntos de favelas do Alemão e da Penha, de um total de 53 feridos a bala.

'Precisamos de mais parceiros'

O coordenador operacional da CPP, Ivan Blaz, reconheceu que, desde meados de 2013, as UPPs vêm passando por eventos críticos que causaram o aumento da violência nas comunidades.

"Já temos cabines blindadas e anteparos balísticos simples na UPP São João, do Alemão, de Nova Brasília e da Fazendinha, e estamos montando na Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) para levar a outras comunidades. Nossa estratégia é a ocupação nas partes elevadas dos morros", afirma Blaz.

As novas medidas, no entanto, já encontraram um avanço, segundo ele: "Os ferimentos em 2014 foram mais graves do que os que estão acontecendo em 2015 [tiros de raspão, por exemplo]. Isso mostra uma melhora no preparo dos policiais", analisa.

Blaz fez um apelo para que mais empresas privadas ajudem a UPP a criar projetos sociais e mantê-los dentro das comunidades.

Ameaças do tráfico

Em entrevista ao G1, um morador do morro Dona Marta, que recebeu a primeira UPP em dezembro de 2008, falou sobre a desistência de muitos moradores de participar de projetos sociais dentro da comunidade.

"Tudo por medo do tráfico, né? Das ameaças que a pessoa pode receber", avalia. Blaz ressalta que este é um dos principais desafios das UPPs neste sétimo ano de projeto, principalmente com o público entre 12 e 18 anos.

"Precisamos da participação popular, que o Alemão demonstrou este ano após 100 dias de conflito armado, e que a Maré já demonstra há muito tempo. Temos parcerias com a LBV [Legião da Boa Vontade] em Manguinhos e o Ação Social Pela Música em 19 comunidades, mas precisamos de mais como estes. Precisamos de mais pessoas e empresas que nos ajudem, porque vários dos projetos tocados hoje ocorrem graças aos próprios policiais das unidades", avaliou.

Imagem aérea do Conjunto de Favelas da Maré: desafio para UPPs (Foto: Ricardo Moraes/Reuters)

Na Maré, os problemas vividos entre a Força de Pacificação e os moradores, além dos tiroteios frequentes envolvendo traficantes, transformam a instalação de UPPs em um desafio.

"Vamos fazer encontros quinzenais com as associações de moradores da Maré para saber das demandas de segurança naquela área, além de simplesmente enfrentar criminosos armados e criar uma relação de confiança com as comunidades", garantiu Blaz.

A previsão é de que as quatro UPPs previstas para a região fiquem prontas até o primeiro trimestre de 2016. Veja abaixo vídeo do enterro do PM Alex Amâncio, nesta terça-feira (7).