O Rio de Janeiro é o espelho do Brasil. O que ocorre no Rio de Janeiro fatalmente se transmitirá em cadeia para os outros Estados da Federação. As questões de justiça criminal e ordem pública não fogem desta regra. Portanto, é estratégico manter a atenção, estudar o cenário, analisar as experiências e observar as políticas lá realizadas, ajudando no alcance dos objetivos. A solução desta guerra envolve leis duras e um Sistema de Justiça Criminal integrado, ágil, coativo e comprometido em garantir o direito da população à segurança pública.

terça-feira, 10 de abril de 2012

PM É ASSASSINADO POR ASSALTANTES EM NITERÓI


Delegacia de Homicídios que atende a cidade e Maricá conta apenas com 30 policiais para 629 mil habitantes - Antonio Werneck e Luiz Ernesto Magalhães - O GLOBO, 10/04/12 - 0h51


RIO - Em mais um caso de violência em Niterói, um PM foi assassinado na noite de segunda-feira, por volta das 21h, ao tentar impedir um assalto a um posto de gasolina na Avenida Professor João Brasil, próximo à Alameda São Boaventura, no Fonseca. Identificado como Celso de Jesus, o policial, lotado no 12º BPM (Niterói), estava à paisana, percebeu a ação dos bandidos e os abordou. Houve troca de tiros e o PM foi atingido por quatro balas — uma delas na cabeça. Ele ainda foi levado para o Hospital Azevedo Lima, mas não resistiu aos ferimentos.

Apesar dos problemas que vem enfrentando, a cidade ainda sofre com a falta de policiais. Líder em pesquisas de qualidade de vida — é a terceira cidade com o melhor índice de desenvolvimento humano (IDH) do país e está no topo no ranking dos municípios com a maior renda média domiciliar per capita do país (R$ 2 mil, segundo o Censo 2010) —, Niterói não tem o mesmo destaque quando o assunto é segurança. A síntese do esvaziamento da cidade poderia ser a situação da Delegacia de Homicídios (DH). Responsável pelo combate ao crime nos municípios de Niterói e Maricá, a delegacia, que já teve 80 policiais há dez anos, hoje trabalha com 30 para cuidar de 629 mil habitantes dos dois municípios. Cada policial da DH cuida de 21 mil moradores.

População aumentou, mas efetivo da PM encolheu

Um estudo do professor Jorge da Silva, coronel reformado da PM e atualmente lecionando na Uerj, revela que Niterói passou a perder efetivo policial com a fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, em 1975. Na época, observa o professor, a população de Niterói era de 376 mil habitantes e o efetivo do 12º BPM tinha mais de mil homens. "Três décadas depois, a população aumentara para 477.919 (dados de 2008) e o efetivo do batalhão encolhera para 820 componentes (dados de 2009)", diz ele no estudo.

Em 1975, além do 12º BPM, a PM contava em Niterói com a Ala de Cavalaria, no Fonseca, que fazia o patrulhamento a cavalo na cidade; as companhias de Choque, de Trânsito e de Escola (no Fonseca), que formava PMs e complementava o policiamento na fase de treinamento.

Em São Gonçalo, havia ainda o 11º BPM (Neves) — importante para Niterói, pois era limítrofe e fazia a segurança dos presídios. O batalhão acabou transferido para Nova Friburgo. Funcionava ainda na cidade o Batalhão de Serviços Auxiliares (BSA), cujos policiais nos fins de semana eram empregados em eventos extraordinários. Segundo o professor, com exceção do 11º BPM, todas as unidades foram extintas.

Com pouco efetivo, o jeito é improvisar: devido ao aumento da violência, a PM anunciou ontem que vai criar um cinturão cercando todos os acessos a Niterói. O comandante do 12 BPM, coronel Volney Dias, quer apresentar ao coronel Maurício Santos de Moraes, comandante do policiamento da área, uma proposta que abrange São Gonçalo, Maricá, Itaboraí e Cabo Frio. O objetivo é fazer um cinturão de segurança nas entradas das cidades. Será feita também uma reunião para decidir como será esse reforço.

Segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP), em fevereiro deste ano, o número de assaltos a estabelecimentos comerciais em Niterói aumentou 38,4% em relação ao mesmo período do ano passado. Os roubos de residência subiram 285,7%; os de veículos, 71,1%; e os assaltos a pedestres, 13,5%. No último caso de violência em Niterói, um homem foi baleado durante um assalto, sábado à noite, e corre o risco de ficar cego de um dos olhos.

O rapaz, que é deficiente auditivo, seguia com a namorada, de moto, pela Estrada de Itaipu, quando foi abordado por dois homens numa outra moto. Segundo o depoimento da jovem, os bandidos atiraram na vítima antes mesmo que ele tivesse qualquer reação e fugiram com a moto.

COMENTÁRIO DO BENGOCHEA - Os policiais militares do Rio são os que recebem um dos piores salários pagos nas PMs em todo o Brasil. E são os que mais arriscam a vida num cenário de guerra, terror e violência.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

TRAFICANTES MATAM CABO PM NO CONFRONTO COM PATRULHA


Polícia faz operação para encontrar bandido que matou PM na Rocinha. Cabo do Batalhão de Choque foi a nona vítima na comunidade em menos de dois meses. Athos Moura e Ana Claudia Costa - O GLOBO, 4/04/12 - 3h45


RIO - Cerca de 150 policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), do Batalhão de Choque e da Coordenadoria de Inteligência fazem uma operação na Rocinha, na Zona Sul, em busca do assassino do cabo da PM Rodrigo Alves Cavalcante, do Batalhão de Choque.

O PM foi morto a tiros na madrugada desta quarta-feira quando fazia patrulhamento a pé no alto da comunidade com outros sete policiais, por volta de 0h30m. Ele é a nona pessoa assassinada na comunidade desde fevereiro. A Rocinha está ocupada pela polícia desde novembro do ano passado. Segundo o coordenador de Policiamento da Rocinha, major Edson Raimundo dos Santos, oito policias patrulhavam o beco 99 quando abordaram um homem suspeito, que não obedeceu à ordem de parar e fugiu atirando para trás. O disparo atingiu o cabo Rodrigo pelas costas. De acordo com o major, mais à frente, os policiais encontram uma pochete com munições de 9 milímetros e uma identificação. De acordo com a polícia, o suspeito se chama Edilson Tenório de Araújo, que já tem passagem por tráfico de drogas.

O cabo foi atingido no ombro esquerdo, na altura da axila. Ele chegou a ser socorrido e encaminhado ao Hospital Miguel Couto, no Leblon, mas não resistiu aos ferimentos. O cabo Rodrigues, que é filho de um policial militar, será sepultado com honras militares. A data e o local do enterro ainda não estão definidos.

O ataque aos policiais aconteceu dois dias após o coordenador de Policiamento da Rocinha ter anunciado que a Polícia Militar adotaria um Plano B no policiamento da área. Aos invés de patrulharem apenas os principais acessos da comunidade, os policiais também percorreriam becos e vielas a pé.

A decisão foi tomada após as mortes na comunidade. No domingo, Alexandre da Cunha Fernandes, de 30 anos, conhecido como Dante, foi morto com um tiro na testa enquanto bebia na frente de um bar, na Estrada da Gávea com a Via Ápia. Testemunhas contaram que dois homens numa moto se aproximaram de Alexandre, e que o carona, portando uma pistola, disparou uma única vez.

No último dia 26, Vanderlan Barros de Oliveira, conhecido como Feijão, que presidia uma das quatro associações de moradores da Rocinha, foi executado pelas costas com três tiros de pistola. Um dia depois da morte do líder comunitário, o secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame, ao visitar o Complexo do Alemão, afirmou que iria aumentar o número de policiais na Rocinha.

No dia 16 de fevereiro, uma disputa entre traficantes rivais na Rocinha deixou dois mortos. Há cerca de um mês, três homens foram encontrados mortos a tiros na comunidade. E um suspeito ferido nesse mesmo tiroteio acabou morrendo quando estava sendo socorrido no hospital.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

NOVOS ATAQUES

Em novo ataque, jovem é baleado em Niterói. Estudante é baleado por bandidos no Ingá 24 horas após morte de médico em assalto - O Globo. 1/04/12 - 11h44

RIO - No centro de uma onda de violência, Niterói teve neste domingo mais um dia tenso. Menos de 24 horas depois do assassinato do médico Carlos Vieira de Carvalho Sobrinho, em Icaraí, durante um assalto na porta de casa, uma tentativa de roubo de carro fez mais uma vítima na Zona Sul da cidade. Na madrugada de domingo, por volta das 2h30m, o estudante de administração Jorge Luiz Carvalho, de 24 anos, foi baleado no pescoço após ser atacado por dois homens na Rua Justino Bulhões, em Icaraí.

De acordo com o comandante do 12 BPM (Niterói), coronel Wolney Dias, a população de Niterói tem razão ao reclamar da falta de policiais no batalhão. Ele afirmou, no entanto, que o comando da corporação está ciente do problema e fazendo esforços para mudar o quadro. Esta semana, 30 recrutas serão incorporados à unidade, responsável pelo policiamento de Niterói e Maricá.

— Nós estamos conversando muito com a sociedade de Niterói, com o objetivo de buscar soluções para a segurança da cidade. Queremos dar uma resposta rápida e, por isso, estamos dinamizando o policiamento nos locais de maior incidência criminal — disse.

O coronel Dias disse ainda que não pode afirmar que o aumento da criminalidade em Niterói e São Gonçalo tenha relação com a fuga de bandidos das comunidades pacificadas do Rio:

—- Não podemos especular. Não temos números para confirmar esta suspeita de alguns segmentos da sociedade. Desde que assumi o batalhão, foram feitas cerca de 600 prisões. Desse total, apenas 5% dos detidos declararam que vieram do Rio.

No entanto, reportagem do GLOBO revelou, em março, que o Ministério Público estadual investiga a ação de traficantes da Rocinha e do Vidigal na Favela do Sabão, no Centro de Niterói.

Estudante respira por aparelhos

O segundo ataque consecutivo também aconteceu na porta de casa. Jorge Luiz estava dentro de seu carro, em frente a um prédio no Ingá, onde mora um amigo. Após disparar contra o jovem, os bandidos ainda roubaram outro carro e fugiram. O amigo de Jorge Luiz o encontrou caído no chão.

O rapaz foi levado pelos bombeiros para o Hospital Azevedo Lima, no Fonseca, onde foi operado de manhã. Segundo informações do hospital, Jorge Luiz respira com a ajuda de aparelhos e seu estado de saúde é grave. À tarde, ele foi transferido para um hospital particular, em Icaraí.

Também na manhã de ontem, policiais do 12 BPM prenderam em flagrante Gustavo Gabriel Sampaio, de 24 anos, e um menor, de 16 anos. Eles haviam rendido um casal num Fiat Uno, na Rua Fagundes Varela, no Ingá, e planejavam seguir com as vítimas para São Gonçalo, com a intenção de fazer saques em caixas eletrônicos.

Quando os ladrões passavam pela Avenida Visconde de Rio Branco, no Centro de Niterói, policiais militares desconfiaram e pararam o carro onde eles estavam. Com a dupla, foi apreendido um revólver calibre 38. Gustavo mora no bairro Gradim e o menor na Favela da Chumbada, no bairro Mutondo, um dos principais pontos de venda de drogas em São Gonçalo.

— Os policiais fizeram um excelente trabalho, ao efetuarem a prisão sem colocar em risco a vida dos reféns — disse o tenente Maurício, supervisor do 12 BPM.

Neste domingo, no Cemitério Parque da Colina, em Cantagalo, durante o enterro do médico Carlos Vieira de Carvalho Sobrinho, morto quando chegava em casa na madrugada de sábado, parentes e amigos estavam indignados com a situação de Niterói. Compadre do médico, o ex-secretário de Segurança do município e atual assessor do prefeito Jorge Roberto Silveira, Marival Gomes, criticava a falta de integração dos governos estadual e municipal.

— O governo do estado tem que cuidar de todo o estado e não só do Rio de Janeiro. Falta um plano de avaliação da política de segurança para os outros municípios — criticou Gomes. — Esse e outros crimes não podem ficar sem solução. Carlos era um irmão para mim. Foi ele que fez o parto das minhas filhas. Ele voltava para casa depois de deixar um filho na rodoviária e morreu ao tentar recuperar laudos médicos que estavam no carro. Era um homem voltado para a família e de muita responsabilidade profissional.

Uma manifestação pela paz foi organizada ontem, na Praia de Piratininga, pelo SOS São Francisco e SOS Niterói, movimentos surgidos na internet, em redes sociais. Segundo o analista judiciário Luís Roberto Saad, membro do SOS São Francisco, há quase duas mil assinaturas já coletadas em uma petição pública que o grupo pretende levar ao governo estadual, pedindo o aumento do efetivo no 12 BPM.

— O batalhão, que já foi classe A, com 1.200 policiais, agora é classe C, com efetivo máximo de 600 homens. Além disso, é responsável pelo policiamento de Niterói e Maricá. Reivindicamos um efetivo maior e um batalhão para Maricá — observou Saad.

Enquanto o reforço policial não chega, a mobilização continua. Uma nova manifestação está marcada para o dia 29, em São Francisco.

sábado, 31 de março de 2012

ARQUITETA MORRE ATINGIDA POR TIROS


Mulher é baleada, bate com o carro e morre no Alto da Boavista. Polícia acredita que ela pode ter sofrido uma tentativa de assalto. O Globo. 31/03/12 - 11h05

RIO - A arquiteta Renata da Trindade Mendonça, de 29 anos, morreu na madrugada deste sábado, por volta das 3h, ao ser atingida por tiros no Alto da Boavista. Depois de ser baleada, ela ainda conseguiu dirigir alguns metros, mas bateu com o veículo na altura da curva do S. Renata ainda foi levada por bombeiros do Batalhão Florestal para o Hospital Lourenço Jorge, na Barra, mas não resistiu aos ferimentos.

Policiais do 6º BPM (Tijuca) contaram que foram informados sobre uma colisão no local e, ao chegarem, perceberam que Renata, que dirigia um Fox preto, tinha sido baleada. A polícia acredita que ela pode ter sido vítima de uma tentativa de assalto. A Divisão de Homicídios (DH) vai investigar o caso. Na manhã de sábado, ao chegar à delegacia, o tio de Renata, Walter Trindade, disse que ela foi surpreendida por um tiroteio. Ele afirmou que Renata voltava da Barra da Tijuca para a casa, no Grajaú.

RECRUTAS DA PM FARÃO ESTÁGIO NA ROCINHA


Recrutas da PM farão estágio na Rocinha até chegada de UPP. A medida vai possibilitar reforço no policiamento comunitário, agilidade no combate ao crime e uma maior sensação de segurança para os moradores. Antônio Werneck e Duilo Victor. 30/03/12 - 23h32


RIO - Até a chegada da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), ainda sem data marcada, a Rocinha será o primeiro campo de instrução por onde todos os recrutas da Polícia Militar passarão, numa espécie de estágio obrigatório, revelou na sexta-feira ao GLOBO o comando da corporação. A medida vai possibilitar reforço no policiamento comunitário, agilidade no combate ao crime e uma maior sensação de segurança para os moradores. Pelo planejamento, a Rocinha ganhará o status de Área de Estágio Prático-Operacional para todos os PMs formados pelo Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (Cfap). Na prática, isso significa que a favela terá seu efetivo dobrado até sexta-feira, de 350 para 700 PMs.

A Rocinha é uma das maiores favelas do Rio, com 70 mil habitantes e uma população flutuante que aumenta nos feriados. A comunidade se estende pelos bairros da Gávea e de São Conrado, dois dos mais altos IPTUs da cidade. Nos complexos da Penha e do Alemão, também com cerca de 70 mil habitantes, hoje atuam 750 PMs e 1.800 militares do Exército.

Na Rocinha, os recrutas serão comandados pelo major Edson Santos, oriundo do Bope e escolhido esta semana para ser o coordenador-geral da ocupação. Terão apoio do Bope e do Batalhão de Choque.

— O policiamento está sendo reforçado na Rocinha, além de implantarmos uma dinâmica diferenciada, com superposição de patrulhas, principalmente no alto da favela, na localidade da Cachopa. Não vamos perder essa guerra. Se for necessário, aumentaremos o policiamento — garantiu o coronel Frederico Caldas, coordenador-geral de Comunicação da PM.

A PM informou que o "grande desafio é dar visibilidade ao policiamento, proporcionando sensação de segurança e aumentando a capacidade de prevenção de crimes, inclusive na região em torno das comunidades". No dia 23 passado, a favela já havia recebido o reforço de 130 PMs recém-formados, atualmente lotados na Coordenadoria de Polícia Pacificadora. Na quinta-feira, outros 40 PMs se juntaram à tropa. Para a Polícia Militar, "a missão de acabar com o domínio territorial do fuzil foi cumprida". A corporação diz ainda que "a venda de drogas é uma triste realidade que se repete nas maiores cidades do mundo, causando um grande problema de saúde pública".

Lucros explicariam disputas do tráfico

Desde o início do ano, a Rocinha é palco de uma disputa travada por dois grupos de traficantes. A luta, que já deixou sete mortos, é pelos mais lucrativos pontos de venda de drogas do estado. Os negócios rendem aos bandidos cerca de R$ 1 milhão por mês, segundo revelou o traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, ao ser preso em novembro, às vésperas da ocupação. Fontes da PF e da Polícia Civil revelaram que os bandidos estariam armados até com fuzis, mas a PM nega categoricamente que tenha essa informação. Último dos grandes redutos do tráfico no Rio recuperado pelo Estado para receber uma UPP, a Rocinha é a primeira a ter resistência violenta do tráfico.

Para especialistas, o processo de pacificação na favela esbarra em dois obstáculos que a tornam diferente das outras comunidades. Ex-secretário nacional de Segurança Pública, o coronel José Vicente da Silva Filho lembra que a Rocinha sempre foi a mais lucrativa favela para a venda de drogas. A coordenadora do Núcleo de Pesquisas das Violências, da Uerj, a antropóloga Alba Zaluar, ressalta que, diferentemente das outras comunidades ocupadas, o principal chefe do tráfico — Nem — foi preso nos primeiros dias de operação. A chance de ainda obter lucros com o tráfico, mesmo com a pacificação, e os acertos de contas que se seguiram à ausência de Nem ajudam a explicar os assassinatos ocorridos nas últimas semanas, segundo especialistas.

José Vicente disse que esperava, com as ocupações do Alemão e da Rocinha, que os traficantes fizessem uma espécie de acordo tácito para não chamar a atenção da polícia com ações armadas. Mas não foi isso o que ocorreu:

— A Rocinha é o filé mignon da droga no Rio, fica no coração da Zona Sul, é de mais fácil acesso que o Complexo do Alemão. As disputas que ocorrem na Rocinha são fruto do vácuo de poder deixado pelo antigo chefe.

Alba destacou que, mesmo com essa aparente resistência do tráfico, os bandidos terão que modificar seus métodos:

— Na Rocinha, o Nem foi preso. Abriu chance para que outras pessoas se interessassem (pelo tráfico na favela). A localização da Rocinha a faz um lugar lucrativo para o tráfico. Isso (o processo de pacificação) vai levar tempo. A organização do tráfico vai ter que se adaptar. Parece que querem o mesmo tipo de controle armado de território que havia antes, mas isso vai ter que acabar.

— Há um ajuste de contas pela herança deixada pelo Nem. O que se pode assegurar é que o tráfico não será nos moldes de antes, com bocas de fumo, como se via. Não vai haver mais poder com fuzil — disse o sociólogo Ignácio Cano, professor da Uerj .

Além da PM, a Polícia Civil também trabalha para acabar com a resistência do tráfico na Rocinha. A Divisão de Homicídios identificou dois homens suspeitos de envolvimento no assassinato do líder comunitário Vanderlan Oliveira, o Feijão, ocorrido segunda-feira: Thiago Martins Cafieiro, o FM, e Wellington Cipriano, o Vasquinho. A DH também conseguiu mandados de prisão contra cinco homens acusados de um quádruplo homicídio na favela, no início do ano: Zeus Pereira Vasconcelos, o Peteleco, de 30 anos; Alberto Luiz Justiniano Deodato, o Zork, de 30; Inácio Castro Silva, o Canelão, de 32; Leandro Soares dos Santos, o Carequinha, de 31; e André Fernandes de Paulo, o Cupim, de 21.

As disputas na Rocinha começaram este ano, depois que traficantes da mesma facção criminosa expulsa dos complexos do Alemão e da Penha pelas forças de segurança tomaram a parte alta da favela de São Conrado. O grupo, segundo policiais federais, seria formado por 50 homens, chefiados por Canelão, expulso da favela em 2008 por Nem. Com a prisão do traficante, que controlou a favela por seis anos, a venda de drogas passou a ser gerida por seu "gerente", Amaro Pereira da Silva, o Neto.

A disputa teve reflexos também numa importante base do tráfico da Rocinha no asfalto: a Cruzada São Sebastião, conjunto habitacional no Leblon. Três pessoas foram baleadas ali nos últimos 34 dias. No dia 26 de fevereiro, um homem levou dois tiros após ser perseguido. No dia 20 passado, o bandido voltou e baleou outro homem, que havia ajudado a socorrer a primeira vítima. Além disso, uma bala perdida atingiu o pé de um funcionário de uma companhia telefônica. O delegado Gilberto Ribeiro, titular da 14 DP (Leblon), diz que o autor das tentativas de homicídios é traficante da Rocinha. O motivo dos crimes ainda é desconhecido:

— Os crimes já foram esclarecidos e o autor, identificado. Sabemos que o atirador é da Rocinha e, pelas minhas informações, a primeira vítima já teve ligação com o tráfico.

MÉDICO É MORTO A TIROS EM TENTATIVA DE ASSALTO

Médico é morto a tiros em tentativa de assalto em Icaraí. De acordo com testemunhas, ele saía de carro quando foi abordado por dois homens em uma moto. O Globo. 31/03/12 - 11h20


RIO - O médico Carlos Vieira de Carvalho Sobrinho, de 65 anos, foi morto a tiros na manhã deste sábado durante uma tentativa de assalto, quando entrava de carro na garagem de sua casa, na Rua Comandante Miguelote Viana, em Icaraí, Niterói, próximo ao Morro do Cavalão. De acordo com testemunhas, ele foi abordado por dois homens numa motocicleta. Os policiais disseram que o médico foi baleado ao tentar reagir. Os bandidos fugiram com o carro da vítima, um Cerato.

Nos últimos meses, Niterói tem experimentado uma onda de violência. A Polícia Militar investiga o deslocamento de traficantes do Morro da Mangueira, no Rio, que foi ocupada por uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), para comunidades do município, como Morro do Preventório, em Charitas, e do Complexo da Maré e de Senador Camará para o Morro do Cavalão, no Centro de Niterói. Pelo menos 30 bandidos já estariam agindo na cidade, praticando assaltos com reféns, arrastões e roubos.

quarta-feira, 28 de março de 2012

TRANSIÇÃO MILITAR NO COMPLEXO DO ALEMÃO


Começa no Rio nova etapa de pacificação de favelas. Bope ocupou áreas do Complexo do Alemão, numa ação que prepara a saída do Exército do local - ZERO HORA 28/03/2012

A Polícia Militar do Rio de Janeiro iniciou ontem uma varredura em duas comunidades do Complexo do Alemão, na Zona Norte, para a instalação das primeiras Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no local. A operação representa a preparação para a retirada do Exército da comunidade. Os militares estão na região desde novembro de 2010, mas até junho os cerca de 2 mil homens serão substituídos por PMs, numa transição gradual.

Os 750 homens do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e do Batalhão de Choque vão permanecer nas favelas Nova Brasília e Fazendinha por 10 dias. Nesse intervalo serão instaladas as duas primeiras UPPs no complexo, que compreende 13 favelas. Os PMs não encontraram resistências ao entrar na área. Três homens foram presos, um deles suspeito de ser o atual líder do tráfico na região. Foram apreendidas armas e drogas, além de produtos falsificados.

A transição no Alemão ocorre no momento em que se tenta administrar uma crise na Rocinha, com a volta da disputa pelo tráfico. Ontem, a PM anunciou novo aumento do efetivo responsável pelo policiamento na comunidade, na zona sul da cidade, ocupada desde novembro passado. Mais 40 policiais foram enviados para a favela, que já havia recebido 130 na última sexta-feira. Agora já são 350 os PMs em ação na Rocinha, que ainda não tem data para receber UPP.

A comunidade foi palco de crimes e confrontos nos últimos dias, quando nove pessoas foram assassinadas, entre elas um líder comunitário suspeito de envolvimento com o traficante Antônio Bonfim Lopes, o Nem.

O secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame, defendeu a ocupação:

– Não podemos dizer que em quatro meses vamos trazer a paz total para essa comunidade nem para o Rio de Janeiro. Se tiver que colocar mais policiais, nós vamos colocar. A população pode acreditar que nessas comunidades onde já estamos não vai haver nenhum tipo de recuo, porque a ocupação é absolutamente necessária.

Segundo Beltrame, os crimes na Rocinha foram praticados por criminosos prejudicados pela ocupação policial.

O governador Sérgio Cabral (PMDB) emitiu nota. Segundo ele, a polícia está enfrentando um “tumor que estava matando o Rio de Janeiro”.

SUA SEGURANÇA | Humberto Trezzi. Mais do que na hora

A PM do Rio começou ontem a fazer a varredura final nas favelas Nova Brasília e Fazendinha para implantar as primeiras Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no chamado Complexo do Alemão, composto de 13 comunidades. Já era mais do que hora disso acontecer.

O Alemão, como é chamado pelos moradores, era o maior QG do crime organizado no Rio. As comunidades do complexo eram as que reuniam mais bandidos armados. E isso ficou escancarado após a fuga de centenas de criminosos com fuzis nas mãos, mostrada ao vivo pelas TVs, em novembro de 2010. Tomados aqueles morros, o Exército permaneceu lá, inclusive com tropas gaúchas. Até certa forma, uma decisão controversa, porque as Forças Armadas não conhecem bem os criminosos. É até possível que tenham conseguido se reorganizar, como está acontecendo na Rocinha, que já tem uma UPP e, apesar disso, enfrenta uma guerra de quadrilhas pelo controle do tráfico.